domingo, outubro 19, 2008

Feira de castro- O Pulsar da Feira em Retratos à la Minuta

A Feira de Castro continua a ser um marco nas tradições alentejanas por toda a região do Campo Branco. Começa também aqui no Pulanito ser tradicional a respectiva reportagem fotográfica, especialmente para aqueles que não assistiram ai vivo à feira mais antiga do sul do país.
À imagem de outros anos vou-me deixar de palavreado, deixando que as fotos falem por si.

No Domingo de manhã havia um mar de gente subindo e descendo a Rua Fialho de Almeida, artéria fundamental que desagua no recinto secular da feira.

No Sábado deparei-me com este "Fernando Pessoa" vendendo o Borda D'àgua, essa publicação secular que atravessa os tempos e que a Editorial Minerva, teima (e bem) em manter no mesmo formato. Este "Pessoa", encaixava ás mil maravilhas no artigo que mercava, não fosse este guia da natureza, uma quase "ode triunfal".



Um moiral e um ganhão fazem uma paragem estratégica antes de se internarem na multidão. Bem sei que são cantadores vestidos para o efeito, mas há poucas décadas atrás este seria um quadro absolutamente normal.

Facas....



E anjos...


Imagem da crise: 2 guarda chuvas e uma carteira de cabedal por 5 euros. mesmo chovendo e o produto anunciado cair como "mosca no mel", o esforçado speaker não conseguia escoar a mercadoria. Comprei-lhe eu o artigo, para o poder apreciar de perto.



A feira parou para a ver passar. Olha que coisa mais linda mais cheia de graça..a coisa mais linda que eu já vi passar. Já só a apanhei de costas, mas garanto-vos que a frente ainda era melhor que a traseira. Excelente lavagem de olhos em dia de chuva.



A feira também parou para os ver passar....




A vertigem do carrocel...a chuva só veio trazer ainda mais adrenalina.


Coisas que já só se vêm na Feira de Castro



Digam lá como é que o Sr. Joaquim Custódio não teria lugar nesta galeria, depois de se fazer à foto melhor que muitos profissionais.


No ano passado estes apoios para arca foram uma das minhas mercas.



Cajados de moiral. Uma das imagens da genuinidade desta feira multisecular.



No ano que vem estou cá caído...2009 é ano de bota nova.



Para além de multisecular a feira de castro é também multiracial. Para o caso e como o homem das castanhas não pode faltar numa reportagem como esta, aqui estão duas mulheres magrebinas comprando castanhas. Um cenário impossivel alguns anos atrás.


O homem dos balões empresta á feira o colorido que os céus parecem quere negar.

Uma despreocupada visitante experimenta sentada na soleira da porta o seu novo par de sandálias.

Romãs - fruta de Outono. Sinal que é tempo de feira de Castro.

Terra de grandes barrigas onde há tanta gente gorda, ou então a outra canção: Não te cuides não, vais ver onde vais parar!

Etiquetas: alentejo, Castro Verde, entradas, Feira de Castro

Escrito por pulanito @ outubro 19, 2008   5 comentários

sexta-feira, setembro 19, 2008

Baja Lisboa - Entradas 200 Km a Pedalar


Pronto. A coisa andava a ser preparada há tempos. Fui falando à rapaziada que um dos meus desejos era fazer o percurso Lisboa – Entradas, assim em jeito de mais um risco na coronha pistola, à laia dos assassinos a soldo do velho oeste.
Nos nossos percursos pedalantes a coisa lá vinha à baila de quando em vez. O Carneiro, que é homem de palavra e de levar as coisas p’ra frente voltou a levantar a lebre no seu blogue oxiclista ( que para quem gosta de bicicletas e afins aconselho a visitar), e pediu uma data. O Joaquim Miguel que não é de modas, aventou a data de 27 de Setembro,
Eu não treino há 3 semanas, vim para o Alentejo onde tenho a minha “pedalêra” e treinar estes dois dias, mas acontece que (no momento em que escrevo) chove copiosamente e as previsões para o fim de semana não são nada animadoras, vai daí estou na iminência de ir pedalar 200 Km sem ter treinado uma única vez, o que é outro desafio.
Deixo-vos aqui o percurso que o amigo Carneiro publicou no seu blogue e que penso escrupulosamente cumprir. Portanto quem nos quiser acompanhar ou apanhar na estrada o itinerário aí está.
Claro que farei fotos e crónica desta aventura de um dia só.
Em relação a poiso e morfes, não haverá grande problema até porque em Entradas se come lindamente e para dormir também não será problema.


Diz o Carneiro:

O programa (quase) definitivo é o seguinte:
1. Partida de Lisboa a 27.09.2008, pelas 7:45 Horas no Parque Expo, junto à Torre Vasco da Gama.
2. O percurso vai ser por Xira, Porto Alto - paragem -, Cruzamento Pegões, Vendas Novas - paragem -, Montemor, Alcáçovas - paragem- , Odivelas, Ferreira - paragem-, Aljustrel e Entradas.
3. Dormida em hotel em Castro Verde. Jantar em tasca catita a indicar pelo Pulanito.
4. As paragens serão para abastecimento sólido (sandocas e bifanas) e não devem ser superiores a 15 minutos.
5. O andamento vai ser moderado, com velocidade média nunca superior a 25 e desejável pelos 23 Km/h.
6. Atenção à alimentação e à hidratação. Quem não for petiscando em andamento e se guardar apenas para as bifanas nas paragens, não chega lá. E àgua. Bem sei que gostam pouco de beber àgua, mas é bom que se perceba que quem não beber um bidon por hora, não chega lá abaixo. Eu vou tentar beber 700 ml por hora.
7. Porque para todos nós uma etapa deste tamanho vai atingir os nossos limites, convém que seja utilizado o frequentímetro. Convém perceber que em déficit de líquidos, o sangue fica espesso e o coração funciona a muitas batidas acima do normal. E quando se chega a situações dessas, os lactatos acumulam-se a uma velocidade tal que acaba ali o passeio por causa das caimbras. Bem se pode baixar o ritmo que já não vale a pena.
8. Domingo, 28.09.2008, regresso pelo mesmo caminho, com paragens nos mesmos locais. Partida às 8:00 horas do Hotel de Castro Verde.
9.Está bem, podem vir de carro para cima...foi só para assustar.

Etiquetas: alentejo, ciclismo, cicloturismo, entradas, xiclista

Escrito por pulanito @ setembro 19, 2008   8 comentários

quinta-feira, setembro 04, 2008

Caldeirada de Rãs e outras "Alembraduras"!

A famosa caldeirada de rãs!


Ontem (03/09/08) fui alentejanar lá pra’s bandas do Alentejo profundo, mais propriamente para a Àgua Santa da Herdade - perto de Martinhanes -Mértola, local de onde postei uma das crónicas mais lidas deste blogue (ver post de Setembro 2007) e onde falava das agruras e maravilhas deste pedaço de Portugal desconhecido, e onde voltei passado um ano.
Tinha combinado com o Pardal, António José Brito e com o Caeiros (pessoal lá de Entradas...portanto) passar um serão nestas inóspitas paragens, onde poderia comer a tão almejada caldeirada de rãs de que ouvira falar vezes sem conta.
Não sei porquê, mas este batráquio exerce em mim um fascínio gastronómico, mas que havia anos, senão mesmo décadas que não voltava a sentir nas minhas papilas gustativas o paladar de tão requintado pitéu.
A coisa foi finalmente combinada, e lá abalámos caminho deste santuário em busca de sabores há muito guardados no báu das memórias.
Passámos primeiro por casa do Caeiros que se havia encarregado de por à prova os seus dotes culinários num dos pratos mais simples, mas ao mesmo tempo, mais aplaudidos e apaladados, que por alturas estivais se podem por aqui provar: A Tomatada.
A tomatada é um suculento prato feito com produtos da época e que podem variar consoante o gosto de cada um, e que consiste em juntar, tomates, cebola e ovos, num “revuelto” onde a imaginação de cada mestre de culinária poderá acrescentar o que lhe apetecer.
De qualquer modo estava muito saborosa e revelou-se uma excelente forma de acompanhamento das bogas do rio e mesmo das rãs fritas que lentamente devorámos num ritual que me trouxe à lembrança a última vez que fui à rã.

Teria eu, uns doze anos, quando uma ida à ribeira (à sucapa) consistia numa aventura para mais tarde recordar (como agora está a acontecer).
Sem autorização paternal, sabíamos que nos arriscaríamos no mínimo a um puxão de orelhas, e se a coisa metesse mais aflição talvez um sova de cinto, logo um risco mais que acrescido caso viéssemos a ser descobertos.
Era Verão e logo pela manhã combinei com o meu primo Chico Zé uma caçada à rã.

Armados de fisga na algibeira traseira, rumámos ao pego onde estas se ouviam coachar em sintonia e em sinfonia.
Caçar rãs à fisga implica, uma dose de perícia ao nível de atirador olímpico, coisa que nenhum dos dois possuía, vai dai termos gasto grande parte da manhã a tentar acertar no gelatinoso batráquio, o que se revelou um enorme fracasso.
Para além disso de cada vez que fazíamos um tiro, todas as rãs se atiravam ao pego, só regressando à tona quando a segurança estava assegurada, o que demorava sempre o seu tempo. Resta-me dizer que, melhorámos a nossa pontaria, mas de caçada…nem uma para amostra.
Regressámos a casa para almoçar e não sermos descobertos (condição fundamental para podermos à tarde regressar), e como “ quem não tem cão caça com gato”, optámos pelo plano B, que consistia em esvaziar o pego.
Não me recordo onde o meu primo foi desencantar uma bomba de escoar àgua, o que é certo, é que pela hora da calmaria lá iam estes dois predadores a caminho do mesmo pego, com a firme determinação de o esvaziar e desta vez acabarmos com aquela raça que nos havia atormentado a manhã.
Em Julho e Agosto, as ribeiras deixam de correr formando-se charcos com mais ou menos profundidade a que por aqui se chamam pegos e onde as espécies sedentárias se vão governando do elemento essencial, até que uma nova estação traga leito abaixo as primeiras renovadoras enxurradas, bálsamo essencial para a renovação das espécies e para a marcação dos ciclos da natureza.
Bem, deixemo-nos de filosofia barata e voltemos ao pressentido holocausto.
À medida que a água ia escoando ribanceira abaixo e o volume acumulado no charco cada vez menor, sentíamos a adrenalina de quem está próximo de eliminar de um só golpe o maior número possível de “inimigos”.
Munidos de tábua e saco, fomo-nos internado no pego e quando a água era já uma miragem foi um vertiginoso desatar de paulada nos inocentes batráquios que à medida que eram abatidos eram colocados dentro de cada um dos sacos.

Não me recordo de haver comido essas rãs. Tanto mais que não as podíamos levar para casa. Deste episódio guardo na memória o penoso caminho de volta, enlodados até á medula, às costas um saco recheado de cadáveres de rã e ainda a pesada bomba e respectivo magueirame, que carregámos repartindo o peso pelos dois.
Eu não levei nas orelhas porque estava de férias em casa da minha avó, mas o meu primo levou uma "tuna de porradas" daquelas de ficar todo roxinho e moidinho, e de cama três dias.

Recordo-me deste episódio aqui e agora, enquanto devoro a belissima caldeirada e escuto à minha volta a amálgama de conversas que surgem mais depressa do que o João Domingos (o anfitrião) debita minis em cima da mesa.
Ao meu lado um trabalhador agrícola, conhecedor da terra, silêncios e aves, como se das linhas da palma da sua mão se tratasse, desafia outro conviva (no caso um biólogo com cargo de relevo no ICN), a pronunciar-se sobre o tema que ele pensa (e se calhar bem) dominar melhor que o eminente cientista.
Desafia-o a responder a determinadas perguntas armadilhadas, mas de que este se defende com uma linguagem empírica, mas com um excelente conhecimento do terreno que (pelo olhar) deixa o seu interlocutor bastante admirado.
Falam de predadores. O homem da terra pergunta-lhe se sabe quem depois do homem é o maior predador. O outro hesita, aventa a hipótese do saca-rabos, mas logo o trabalhador agrícola lhe diz com ar vitorioso ser o bufo, e explica porquê.
- Daqui até ao açude (talvez 2km) devem haver 10 ninho de bufo. Cada bufo tem 3 crias, logo necessita de 3 peças de caça por dia para alimentar a prole, multiplicando isto pelo número de dias que lava um bicho destes a abandonar o ninho dava, pelas contas deste “entendido” qualquer coisa como 30 a 40 peças de caça, vezes trinta dias do mês – faça-lhe as contas e diga-me lá quem é o maior predador Sr. Dr. - rematou, ao mesmo tempo que com o olhar buscava cumplices para a sua teoria.
O tempo e as minis foram-se esgotando e por mais que gostasse de ali ficar a ouvir as deliciosas conversas que bailavam de boca em boca, estava na hora de abalar.
Como isto foi escrito de rajada, deve estar uma grande bosta, mas vou correr o risco e publicá-la mesmo assim.
Depois tratarei de lhe dar uns retoques. Portanto e para os mais perfeccionistas, poderão vir aqui vários dias, que sempre terão acesso a uma versão melhorada de uma noite há muito anunciada, e em que me lembrei do facínora que era enquanto pré-adolescente, e onde me diverti no meio de gente verdadeira, vertical (só até ás primeiras 15 minis, depois já não me responsabilizo).
A rapaziada presente veio de Entradas, Castro Verde, S. João dos Caldeireiros.
Pró ano há mais...



PS: Não tenho fotos de jeito, por isso aqui fica aquela que afinal foi mote e razão deste post.

Etiquetas: àgua santa, caldeirada de rãs, Castro Verde, entradas, figueirinha, Maritnhanes, Mértola, Penilhos, SPA alentejo, Tacões, vizeus

Escrito por pulanito @ setembro 04, 2008   6 comentários

domingo, agosto 10, 2008

Zé do Pedal passa por Entradas a caminho de Joanesburgo

Zé do Pedal e Pulanito à porta de minha casa em Entradas

Um dos mais de 750 dias da viagem que José Castro Geraldo encetou em Paris em Maio último e só terminará em Junho de 2010 em Joanesburgo, foi passado em Entradas.
Fui dar com ele à beira da estrada conversando com um pastor alentejano que se terá interessado por tão curiosa personagem e tão invulgar veículo.
Já havíamos falado por telefone de modo a dar-lhe algumas coordenadas acerca da sua passagem por terras do Campo Branco.
A autarquia castrense prontificou-se a pagar o alojamento deste viajante intercontinental no aparthotel local e eu havia prometido almoçar com o Zé do Pedal.

Experimentando o veículo do Zé do Pedal

Chegámos a Entradas cerca das 11.30 horas, passámos por minha casa, refrescámo-nos e o Zé do Pedal que não precisa que puxem muito põe ele para que conte uma das mil estórias de um qualquer lugar do mundo, derramou ali, sentado à minha mesa entre um par de minis, episódios das sua múltiplas viagens que para mim, para além de exemplo são um bálsamo e um incentivo de quem conhece melhor que ninguém o cheiro e o som dos silêncios das estradas de todos esses mundos por onde passou.
Zé do Pedal contenta-se com pouco. Um naco de pão, um copo de água, um canto de qualquer quintal, servem para este cavaleiro do asfalto recuperar as forças dispendidas em mais um dia de jornada pedalante.
O tempo voou a uma velocidade estonteante e senão olhasse para o relógio deixaria passar a hora de almoço.
Levei o Zé a almoçar à Cavalariça. Comemos açorda de fraca, que este devorou como se não houvera amanhãs. Dava gosto ver comer esta simpática figura!

Na Cavalarariça meteu-se com as empregadas e desafiou-as a decifrar este enigma: Porque é que separado se escreve tudo junto, e tudo junto, se escreve separado?
Celebrámos com vinho o mais que provável único encontro pessoal das nossas vidas, mas ficámos a saber, que foi para os dois (muito mais para mim) um momento marcante, daqueles que deixam rasto para o resto da nossa memória existencial.
Pela tarde fora e enquanto lá fora o dia ardia, na fresquidão da minha casa (de onde de resto escrevo) criámos um novo blogue, onde os leitores poderão encontrar relatos das múltiplas viagens pelo mundo que o Zé do Pedal iniciou no longínquo ano de 1981.
Para quem ainda não tenha assimilado, são 27 anos a pedalar. Uma vida!
Tive o privilégio de compartilhar com este amigo grande parte duma jornada inolvidável. De devorar as suas estórias e memórias. De na hora da partida o abraçar e sentir que onde quer que ele hoje, amanhã ou depois esteja, um pouco de mim viaja com ele. Ou será que é ele que viaja um pouco por mim?


Para consultar a vida deste nómada do pedal: http://www.zedopedal2010.blogspot.com/

Quem quiser contactar o Zé do Pedal em Portugal é favor ligar: 917 032 699

Etiquetas: alentejo, Castro Verde, entradas, Joanesburgo, Paris, zé do pedal

Escrito por pulanito @ agosto 10, 2008   4 comentários

sexta-feira, agosto 08, 2008

Notas soltas de Verão


Agosto é uma altura do ano em que a minha mente sofre mutações que tenho de refrear sob pena de quando os dias começarem a minguar, as noites a arrefecer e o entusiasmo a desvanecer, saia dele com algumas cicatrizes permanentes.
Tenho por esta altura do ano uma esmagadora necessidade de abalar (que é diferente de partir embora queira dizer a mesma coisa), de ir “por aí” à descoberta de mim, dos outros, de silêncios, de cheiros, recantos e sabores, e sobretudo de auroras e crepúsculos, que pelas bandas alentejanas (pelo menos para mim) possuem a magia do belo e sensorial.
Depois de descobrir a independência que a bicicleta oferece, saber que hoje estou aqui mas amanhã poderei estar noutra cidade, vila ou aldeia mais adiante, conhecendo outras gentes, outros hábitos, outras terras faz com que pense que o cigano que vive em mim seja violentamente despertado no mês de todos os calores.

Por esta altura do ano e provavelmente porque sofremos da mesma doença, andam pelas estradas do Alentejo outros tantos arautos da liberdade pedalante de cujos nobres objectivos sou signatário militante. Aqui deixo as minhas homenagens aos grandes Zé Lima e Rosa Carvalho que percorrem Portugal em veículos movidos á força braçal, já que são ambos paraplégicos. O Zé do Pedal, com largo destaque aqui no Pulanito é outro exemplo de quão insignificantes e comezinhas são as nossas proezas ciclistas, comparadas com as destes verdadeiros heróis do asfalto que fazem destas viagens verdadeiros exemplos de entrega, coragem e desprendimento.

De qualquer modo, e porque já está decidido, na próxima semana vou estar a pedalar com o Carneiro e o Joaquim Miguel por essas estradas do Alentejo tendo o roteiro das barragens como itinerário imaginário desta nossa viagem.
É claro que aqui trarei a diário ou quando tal me seja possível, as crónicas e os relatos do que nos for acontecendo ao longo das jornadas que ainda não começaram e já penso que são tremendamente curtas.

Às vezes sonho (às vezes não! Todos os dias sonho) que se me sair um prémio, ou se porventura acontecer algo que me traga alguma independência, juro que abandono tudo o que tenho e me dedicarei por inteiro a viajar em bicicleta por onde for. Não terei a veleidade de um Zé do Pedal, que é naturalmente de outro campeonato, mas penso que depois de vasculhar planícies, montes e vales de Portugal, poderia partir à descoberta de outras paragens.

Acabei de falar ao telefone com o Zé do Pedal que me disse passar amanhã por Entradas, assim sendo, lá estarei para lhe oferecer abrigo nas horas em que o sol castiga mais, não sem antes repartirmos um almoço e beber de viva voz e ouvidos bem abertos a experiência de vida que este companheiro quererá comigo partilhar.

E pronto aqui ficam umas notas soltas, resultado do pensamento de quem não vê chegada a hora de abalar estrada fora, ouvindo apenas o imenso silêncio da terra plana e o zunido da corrente galgando os dentes da cremalheira numa infindável viagem à volta dos carretos.

Etiquetas: alentejo, Alqueva, entradas, Santa Clara, zé do pedal, Zé Lima

Escrito por pulanito @ agosto 08, 2008   3 comentários

quinta-feira, julho 31, 2008

De volta

Um anafado participante no desfile de grupos corais

Tenho andado um bocado afastado das andanças bloguistas. Bem sei que muitos dos que fazem desta a sua receita diária, poderão sentir a falta de novidades nas prateleiras virtuais do estaminé do Pulanito.
Pois é! Estive de festa lá pelas bandas da minha pátria alentejana, e isto de beber minis, comer frango assado, voltar a beber minis, comer leitão, voltar a beber minis e depois voltar de novo a beber minis é completamente incompatível com escrevinhar seja o que for.
Estive uma semana inteirinha em Entradas, quase que me desabituei do resto do mundo.
Quarta-feira à tarde (dia 23/07) já eu não sabia como havia de estar de maneira a pisgar-me para Entradas. Na verdade parecia um inquieto moço pequeno em vésperas de viagem de férias grandes.
Como ia por um período mais alargado que os habituais fins-de-semana, o meu contentamento era redobrado, ainda por cima as Festas de Santiago prometiam ser de arromba.
Quinta-feira dia 24 de Julho, andei numa roda viva ultimando os preparativos para a corrida de touros que teria lugar no dia seguinte e que tanto eu como os meus camaradas da organização, António José Brito e Fernando Cotovio, queríamos que corresse às mil maravilhas, o que veio a acontecer.
Em dia de sexta-feira Entradas é invadida por milhares de forasteiros que vêm assistir a esta corrida de touros com calendário marcado para a última sexta-feira do mês de Julho pelas 22.00 horas.
A coisa correu bem, excepto para um forcado do Grupo da Cuba que teve a infelicidade de partir uma perna, mas segundo sei já foi operado e está em franca recuperação.
Correram-se os touros e as minis continuavam a correr também a um ritmo assinalável.
A festa continuou Sábado a dentro com as mais diversas actividades que iniciaram pela manhã com o paintball a que não assisti, depois havia torneio de sueca, uma modalidade que põe à prova a destreza mental dos melhores jogadores da região.
Pela tardinha, voltámos ao frango e ás minis assim como se o mundo estivesse para acabar.
Miguel e André, essa dupla romântica, fez a delícia de muita moça alentejana com as suas baladas que até zunem nalguns corações mais ou menos disponíveis para amar.
Constava do programa que no Domingo, este vosso amigo se disponibilizava para uma conversa que tinha por tema: De Santiago de Entradas a Santiago de Compostela – uma viagem em bicicleta.
Conversa sobre a viagem a Santiago de Compostela
Apareceram os que sabem que apareceram e durante uma hora e picos pude partilhar com a audiência a experiência única que é pedalar 880 Km até chegar ao quilómetro zero da praça Obradoiro em Santiago de Compostela.
Os restantes dias em que tenho estado desaparecido “ em combate” tenho-os empregue em reflectir sobre a vida, que tendo-me sido até agora prazenteira quero-lhe dar uma volta logo que a coragem mo permita.

Etiquetas: cante alentejano, entradas, festas de santiago, Santiago de Compostela, santiago de entradas

Escrito por pulanito @ julho 31, 2008   8 comentários

domingo, julho 13, 2008

Retrosaria Elegante

Castelo de Borba

Tenho com alguns amigos do peito, rituais anuais que se transformaram por via da múltipla repetição em “clássicos” das nossas vidas.
Um desses “clássicos” é a ida a Vila Viçosa à Gráfica Calipolense mandar imprimir cartazes de parede e de montra, folhetos de mão, bilhetes e convites que compõem a parte gráfica de uma organização tauromáquica como aquela que levamos a cabo em Entradas nos últimos nove anos.
A ida à gráfica é o menos, pois o que nos dá verdadeiramente gozo é a visita às tascas da região onde bebemos “rabanhos” de minis até terminarmos a jantar num dos meus templos gastronómicos preferidos e que dá pelo nome de Adega do Isaías em Estremoz, onde para além do homem que deu o nome a esta fabulosa adega, pontua o amigo Roque, um exemplo de profissionalismo e tolerância que me habituei a admirar ao longo dos anos; tudo isto claro, sem nunca deixarmos de passar pelo Restaurante O Julião, também em Estremoz, onde o Silvino Sardo, meu amigo de há mais de três décadas nos recebe sempre com alegria e uma anedota brejeira na ponta da língua de onde destaco o repertório acerca de um famoso personagem de seu nome Zé d’Alter que um dia aqui trarei mais esmiuçadamente.
Mas hoje não vos venho falar de nenhum destes locais ou amigos, venho sim, apresentar-vos uma loja saída de um qualquer cenário dos anos trinta do século passado e a que ternamente chamei “Retrosaria Elegante” que descobri em Borba e que é um daqueles locais “que não existem”.
O tempo por ali há muito que congelou, quer: pessoas, décor e artigos, por isso decidi-me hoje de convosco partilhar a história de Joaquim Manuel Grego um dos primeiros e concerteza o último dos retroseiros tradicionais de Borba.
Joaquim Manuel Grego ao balcão da Retrosaria Elegante

Já ali havia estado em 2007 e com este simpático comerciante havia entabulado interessante conversa, desta vez ia decidido a saber mais, caso a casa ainda se mantivesse aberta, o que se veio a verificar, e mesmo tendo o senhor Grego sofrido recentemente um AVC, este resistente tem na verdade o espírito do último dos moicanos.
Joaquim Manuel Grego, conta com 82 anos, 69 dos quais passados atrás daquele mesmíssimo balcão onde agora o confronto com a dolorosa questão do tempo que lhe resta, que de resto, este encara com a naturalidade dos ciclos que inexoravelmente hão-de um dia terminar.
Começou aqui aos 13 anos na loja de seu tio em 1939. A Retrosaria Elegante era uma casa moderna e que servia tanto as melhores clientelas de Borba e arredores, como também atendia e por vezes acudia aos mais pobres e desfavorecidos, e assim neste ambiente solidário e democrático foi este estabelecimento construindo o seu trajecto e granjeando a fama que o trouxe até aos dias de hoje.
Joaquim Manuel tornou-se sócio da Retrosaria nos idos anos de 1954 e após o falecimento de seu tio há mais de 30 anos que dirige sozinho os destino deste peculiar estaminé.
Mas falemos um pouco do espaço físico que irão aqui encontrar caso pretendam visitar o senhor Grego, coisa que este seguramente agradece.
A retrosaria está situada na parte velha de Borba, junto ao largo principal numa das ruelas que a esse largo vão desembocar.
Quando se entra no antiquíssimo estabelecimento sente-se o choque que só as coisas imutáveis nos proporcionam.
A montra amarelecida há muito que apresenta o mesmo rol de provectas novidades de uma indeterminada estação do ano.
Ao fundo e fora do balcão um razoável cabide corrimão comporta um sem número de casacos, sobretudos e gabardinas empoeirados assim à laia dos vinhos valiosos em estabelecimento da especialidade, se é que consigo por palavras traduzir o poeredo que por ali vai. Para os meus leitores mais familiarizados, é assim uma espécie de Marianita da Estação, mas em versão retroseira (ver post Setembro 2007).
Nas costas do Senhor Joaquim Manuel, amplas prateleiras envidraçadas estão pejadas de peças de fazenda e cortes de fato dos mais variados padrões e classes há muito ali emprateleirados.
Múltiplas caixas de botões, cada uma delas com o seu botanito exemplar pregado na frente da mesma, fechos, agulhas, linhas e mais sei lá quantos produtos são o espólio e o décor deste singular estabelecimento, onde o sorriso do proprietário irradia a luz e simpatia comercial cinzeladas pela experiência de múltiplas gerações de clientes que lhe atravessaram a porta.
À pergunta, de como ia o negócio respondeu-me – tem semanas que não vendo um botão!
Compadeci-me com as agruras deste comerciante e logo ali me comprometi a adquirir um ou mais produtos de que gostasse.
Reparei numa caixa de sapatos que pelo amarelecido do tempo, pelo desenho promocional denotava ser coisa do tempo da minha meninice.
Abrimos a caixa que continha um par de sapatos de senhora. Procurei uma que tivesse o tamanho de uns pés de agora, já que o stock andava pelos 34 e 35’s. Depois de muito vasculhar encontrei uns 38 e disse-lhe que eram esses que iria levar, mais pela caixa que pelos sapatos.
Olhou para mim, e voltou a perguntar se não estava a brincar. Com os sapatos na mão, que eram feitos de finas matérias cabedalisticas disse-me que o preço de tal raridade era 4 euros – nem sequer regateei o preço conforme esperava o expedito comerciante.
Paguei a quantia acordada. Com o dinheirinho no bolso, o Senhor grego disse-me então:
- Agora que já tenho o seu dinheiro na minha algibeira, vou-lhe dizer quanto me custaram estes sapatos.

Negociando a mercadoria


A caixa tinha no fundo um código em letras que ele decifrou. Olhou para mim e confessou ter feito um excelente negócio, até porque só tinha pago 100 escudos pela mercadoria e havia-a vendido pelo equivalente a 800 escudos, só que se esqueceu que o pagamento tivera lugar em 1968 (altura em que adquiriu a mercadoria conforme me provou) e o resgate do investimento deu-se 40 anos depois.
O Senhor Grego afirmou-me ter feito um excelente negócio. Pela minha parte, para além de um amigo, fiz com que o homem se sentisse um pouco mais feliz.

Já em Entradas fotografei caixa e sapato - de reparar no desenho da dita...


Chegado a Entradas mostrei os sapatos à minha irmã. Experimentou-os e perguntou-me se lhos queria vender. Ofereci-lhos, não sem ela me dizer que aqueles sapatos, daquela qualidade não custariam menos de 80 a 100 euros em qualquer sapataria da moda.
Afinal, parece todos fizemos um excelente negócio.
Como à terceira visita se entra na categoria dos “ clássicos”, se para o ano a Retrosaria Elegante ainda estiver aberta e o senhor Grego continuar de saúde, juro que lhe compro outros artigos e desta repetição de gestos e actos, vamos construindo rituais e ciclos que pretendemos que perdurem no tempo. Para o caso presente em 2009 entrará na categoria dos “ clássicos” uma visita a Borba e por consequência à Retrosaria Elegante.

Etiquetas: alentejo, borba, entradas, retrosaria, tourada, vila viçosa

Escrito por pulanito @ julho 13, 2008   6 comentários

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