terça-feira, fevereiro 20, 2018

Passagem Para a Índia



Passagem Para a Índia

Hoje tive um acordar aldeão. De certo modo, regressei aos hábitos da minha terra. É certo de que acordei num barco ancorado à porta do barqueiro, mas a azáfama matinal que se faz sentir lá fora, é em tudo idêntica àquela que aconteceria na minha aldeia, caso lhe passasse um rio navegável pelas entranhas.
Saio à rua. Impõe-se o silêncio dos despertados. Dos que embora acordados, ainda não largaram os braços de Morfeu, ou então, dos que fazem desta serenidade matinal um elogio à vida.
Passeio pela quietude da língua de terra rodeado de água de um e outro lado chamada Kumaracon em terras indianas de Kerala.
Uma mulher à frente do barco munida de uma vassoura de palma, varre acocorada e em silêncio as folhas perecidas que tombaram durante a noite.
O ruído desta vassoura, transporta-me de novo para o meu quinhão e, esta senhora que em passe ritmado limpa o seu pedaço de rua, já não é mais uma aldeã indiana, é sim a Maria Antónia, mulher do Pereirinha a varrer a sua. Se fechasse os olhos e fosse dia de verão, quase que reconheceria a Maria Antónia pelo sincopado da sua varredura.
Mais à frente, um outro homem de sabonete e escova de dentes na mão entra destemido no rio. Mergulha à beira de água e quando volta à tona começa a fazer a sua higiene diária. Não o quero importunar com o olhar de metediço e sigo o meu caminho.
Do outro lado da rua, um outro homem sentado à soleira da porta lê no jornal as notícias matinais enquanto a mulher lhe prepara um café. Todas as casas têm idosos. Sinal de que por aqui, tomam conta uns dos outros até à contagem final dos dias.
Com todos os que na rua comigo se cruzaram, novos e velhos, homens ou mulheres, adultos ou crianças, todos, mas mesmo todos, me sorriram e cumprimentaram num gesto de boa educação.
No regresso ouço uma buzina igual à do Joaquim padeiro lá da minha terra. Acelero o passo para ver se a memória não me atraiçoa. É que de repente, assim num passe de mágica, daquelas coisas que acontecem durante a noite, podiam ter mudado o cenário à minha terra e aquela buzina ser mesmo a do Joaquim e eu estar convencido que estava na Índia.
Não. Não era o Joaquim. Tinha-me esquecido que na Índia não há padeiros, visto o pão, da forma que o conhecemos e que o Joaquim o vende, não fazer parte dos hábitos alimentares desta gente.
Sucedem-se as buzinas dos vendedores matinais tal e qual como na minha aldeia. A que agora vejo passar é a do leiteiro. Uma bicicleta pasteleira, uma campainha, duas vasilhas de grande porte, uma em cada lado, mais as medideiras necessárias, são a ferramenta de trabalho deste profissional.
Duas crianças, de olhos mais negros que a noite mais escura, escancaram o sorriso e acenam-me de leiteira na mão, enquanto aguardam a pontual chegada do homem do leite. Recordo agora, quando era criança tive uma igualzinha.
Logo atrás um Custódio Feio indiano anuncia ao que presumo o seu produto. O meu Custódio Feio não tinha ares de indiano, mas tinha uma motorizada muito parecida e apregoava com o mesmo entusiasmo o seu produto. Ainda parece que o ouço através da voz deste indiano. “ Há carapau e pêxe”, era o seu grito de guerra.
Certa vez, vendo-o aparecer ao longe na estrada que liga Entradas ao Carregueiro e pretendendo fotografá-lo fiz-lhe sinal de paragem. O homem parou, eu fotografei-o e ele foi-se embora. Mais tarde soube que se tinha amedrontado pensando que ia ser assaltado ao não me ter reconhecido.
Já tinha cara de muita coisa, agora de meliante é que não sabia!
Se a minha aldeia tivesse barcos, era lá que eu morava. Gosto desta coisa de me poder mover com a casa atrás água adentro. Gosto disto de comer e ver a vida passar mesmo aqui ao meu lado. Gosto de saber que as pessoas que me dão de vaia, o fazem sem ser só por fazer.
E gosto desta Índia de silêncios e calmarias. Gosto sobretudo da cozinha do Beldram que não para de me surpreender. Ontem à noite voltou a presentear-nos com umas variações de galinha, que quase me deixou sem adjectivos.
Ah.. neste momento escrevo a bordo do Dream Palace — o barco/casa que alugámos — e estamos prestes a partir para a última visita antes de rumarmos a outro destino.
A Natália já lançou o desafio: — Da próxima vez ficamos todo o tempo em Kerala.
Eu, encolho os ombros e mentalmente já me vejo por aqui a criar raízes.

Crónica retirada do livro Olhares, a publicar brevemente.

Escrito por pulanito @ fevereiro 20, 2018   0 comentários

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