domingo, julho 13, 2008

Retrosaria Elegante

Castelo de Borba

Tenho com alguns amigos do peito, rituais anuais que se transformaram por via da múltipla repetição em “clássicos” das nossas vidas.
Um desses “clássicos” é a ida a Vila Viçosa à Gráfica Calipolense mandar imprimir cartazes de parede e de montra, folhetos de mão, bilhetes e convites que compõem a parte gráfica de uma organização tauromáquica como aquela que levamos a cabo em Entradas nos últimos nove anos.
A ida à gráfica é o menos, pois o que nos dá verdadeiramente gozo é a visita às tascas da região onde bebemos “rabanhos” de minis até terminarmos a jantar num dos meus templos gastronómicos preferidos e que dá pelo nome de Adega do Isaías em Estremoz, onde para além do homem que deu o nome a esta fabulosa adega, pontua o amigo Roque, um exemplo de profissionalismo e tolerância que me habituei a admirar ao longo dos anos; tudo isto claro, sem nunca deixarmos de passar pelo Restaurante O Julião, também em Estremoz, onde o Silvino Sardo, meu amigo de há mais de três décadas nos recebe sempre com alegria e uma anedota brejeira na ponta da língua de onde destaco o repertório acerca de um famoso personagem de seu nome Zé d’Alter que um dia aqui trarei mais esmiuçadamente.
Mas hoje não vos venho falar de nenhum destes locais ou amigos, venho sim, apresentar-vos uma loja saída de um qualquer cenário dos anos trinta do século passado e a que ternamente chamei “Retrosaria Elegante” que descobri em Borba e que é um daqueles locais “que não existem”.
O tempo por ali há muito que congelou, quer: pessoas, décor e artigos, por isso decidi-me hoje de convosco partilhar a história de Joaquim Manuel Grego um dos primeiros e concerteza o último dos retroseiros tradicionais de Borba.
Joaquim Manuel Grego ao balcão da Retrosaria Elegante

Já ali havia estado em 2007 e com este simpático comerciante havia entabulado interessante conversa, desta vez ia decidido a saber mais, caso a casa ainda se mantivesse aberta, o que se veio a verificar, e mesmo tendo o senhor Grego sofrido recentemente um AVC, este resistente tem na verdade o espírito do último dos moicanos.
Joaquim Manuel Grego, conta com 82 anos, 69 dos quais passados atrás daquele mesmíssimo balcão onde agora o confronto com a dolorosa questão do tempo que lhe resta, que de resto, este encara com a naturalidade dos ciclos que inexoravelmente hão-de um dia terminar.
Começou aqui aos 13 anos na loja de seu tio em 1939. A Retrosaria Elegante era uma casa moderna e que servia tanto as melhores clientelas de Borba e arredores, como também atendia e por vezes acudia aos mais pobres e desfavorecidos, e assim neste ambiente solidário e democrático foi este estabelecimento construindo o seu trajecto e granjeando a fama que o trouxe até aos dias de hoje.
Joaquim Manuel tornou-se sócio da Retrosaria nos idos anos de 1954 e após o falecimento de seu tio há mais de 30 anos que dirige sozinho os destino deste peculiar estaminé.
Mas falemos um pouco do espaço físico que irão aqui encontrar caso pretendam visitar o senhor Grego, coisa que este seguramente agradece.
A retrosaria está situada na parte velha de Borba, junto ao largo principal numa das ruelas que a esse largo vão desembocar.
Quando se entra no antiquíssimo estabelecimento sente-se o choque que só as coisas imutáveis nos proporcionam.
A montra amarelecida há muito que apresenta o mesmo rol de provectas novidades de uma indeterminada estação do ano.
Ao fundo e fora do balcão um razoável cabide corrimão comporta um sem número de casacos, sobretudos e gabardinas empoeirados assim à laia dos vinhos valiosos em estabelecimento da especialidade, se é que consigo por palavras traduzir o poeredo que por ali vai. Para os meus leitores mais familiarizados, é assim uma espécie de Marianita da Estação, mas em versão retroseira (ver post Setembro 2007).
Nas costas do Senhor Joaquim Manuel, amplas prateleiras envidraçadas estão pejadas de peças de fazenda e cortes de fato dos mais variados padrões e classes há muito ali emprateleirados.
Múltiplas caixas de botões, cada uma delas com o seu botanito exemplar pregado na frente da mesma, fechos, agulhas, linhas e mais sei lá quantos produtos são o espólio e o décor deste singular estabelecimento, onde o sorriso do proprietário irradia a luz e simpatia comercial cinzeladas pela experiência de múltiplas gerações de clientes que lhe atravessaram a porta.
À pergunta, de como ia o negócio respondeu-me – tem semanas que não vendo um botão!
Compadeci-me com as agruras deste comerciante e logo ali me comprometi a adquirir um ou mais produtos de que gostasse.
Reparei numa caixa de sapatos que pelo amarelecido do tempo, pelo desenho promocional denotava ser coisa do tempo da minha meninice.
Abrimos a caixa que continha um par de sapatos de senhora. Procurei uma que tivesse o tamanho de uns pés de agora, já que o stock andava pelos 34 e 35’s. Depois de muito vasculhar encontrei uns 38 e disse-lhe que eram esses que iria levar, mais pela caixa que pelos sapatos.
Olhou para mim, e voltou a perguntar se não estava a brincar. Com os sapatos na mão, que eram feitos de finas matérias cabedalisticas disse-me que o preço de tal raridade era 4 euros – nem sequer regateei o preço conforme esperava o expedito comerciante.
Paguei a quantia acordada. Com o dinheirinho no bolso, o Senhor grego disse-me então:
- Agora que já tenho o seu dinheiro na minha algibeira, vou-lhe dizer quanto me custaram estes sapatos.

Negociando a mercadoria


A caixa tinha no fundo um código em letras que ele decifrou. Olhou para mim e confessou ter feito um excelente negócio, até porque só tinha pago 100 escudos pela mercadoria e havia-a vendido pelo equivalente a 800 escudos, só que se esqueceu que o pagamento tivera lugar em 1968 (altura em que adquiriu a mercadoria conforme me provou) e o resgate do investimento deu-se 40 anos depois.
O Senhor Grego afirmou-me ter feito um excelente negócio. Pela minha parte, para além de um amigo, fiz com que o homem se sentisse um pouco mais feliz.

Já em Entradas fotografei caixa e sapato - de reparar no desenho da dita...


Chegado a Entradas mostrei os sapatos à minha irmã. Experimentou-os e perguntou-me se lhos queria vender. Ofereci-lhos, não sem ela me dizer que aqueles sapatos, daquela qualidade não custariam menos de 80 a 100 euros em qualquer sapataria da moda.
Afinal, parece todos fizemos um excelente negócio.
Como à terceira visita se entra na categoria dos “ clássicos”, se para o ano a Retrosaria Elegante ainda estiver aberta e o senhor Grego continuar de saúde, juro que lhe compro outros artigos e desta repetição de gestos e actos, vamos construindo rituais e ciclos que pretendemos que perdurem no tempo. Para o caso presente em 2009 entrará na categoria dos “ clássicos” uma visita a Borba e por consequência à Retrosaria Elegante.

Etiquetas: alentejo, borba, entradas, retrosaria, tourada, vila viçosa

Escrito por pulanito @ julho 13, 2008   6 comentários

Deixe aqui a sua opinião sobre o Fado!

Links

  • Jardins de Inverno
  • um e o outro - blog do Tim
  • Casa Das Primas
  • Oxiclista
  • correio alentejo - um jornal a ter em conta
  • Mokuna
  • Alojamento grátis em mais de 1300 hotéis. 17 países da Europa
  • Insomnia - Um blogue alentejano a visitar
  • Prova Escrita
  • Alvitrando
  • A Cinco Tons
  • NeuroNewz
  • Tricotar o Tempo
  • Entradas Anteriores

    • Lugar Nenhum Ed Hoster e Napoleão Mira
    • Passagem Para a Índia
    • Incongruências
    • Santiago Maior - Napoleão Mira & Sam The Kid
    • Napoleão Mira na RTP
    • A Fé e o Medo
    • Napoleão Mira - AS Portas Que Abril Abriu - (Ary ...
    • Esta Lisboa Que Eu Amo Houve um tempo (lar...
    • Ribeira de Cobres
    • A Velha Pasteleira
    • Reveillon

    Arquivo

    • agosto 2006
    • setembro 2006
    • outubro 2006
    • novembro 2006
    • dezembro 2006
    • janeiro 2007
    • fevereiro 2007
    • março 2007
    • abril 2007
    • maio 2007
    • agosto 2007
    • setembro 2007
    • outubro 2007
    • novembro 2007
    • dezembro 2007
    • janeiro 2008
    • fevereiro 2008
    • março 2008
    • abril 2008
    • maio 2008
    • junho 2008
    • julho 2008
    • agosto 2008
    • setembro 2008
    • outubro 2008
    • novembro 2008
    • dezembro 2008
    • janeiro 2009
    • fevereiro 2009
    • março 2009
    • abril 2009
    • maio 2009
    • junho 2009
    • julho 2009
    • agosto 2009
    • setembro 2009
    • outubro 2009
    • novembro 2009
    • dezembro 2009
    • janeiro 2010
    • fevereiro 2010
    • março 2010
    • abril 2010
    • maio 2010
    • junho 2010
    • julho 2010
    • agosto 2010
    • setembro 2010
    • outubro 2010
    • novembro 2010
    • dezembro 2010
    • janeiro 2011
    • fevereiro 2011
    • março 2011
    • abril 2011
    • junho 2011
    • julho 2011
    • setembro 2011
    • outubro 2011
    • dezembro 2011
    • fevereiro 2012
    • março 2012
    • abril 2012
    • maio 2012
    • junho 2012
    • julho 2012
    • agosto 2012
    • setembro 2012
    • outubro 2012
    • novembro 2012
    • dezembro 2012
    • março 2013
    • abril 2013
    • maio 2013
    • junho 2013
    • julho 2013
    • outubro 2013
    • janeiro 2014
    • fevereiro 2014
    • março 2014
    • abril 2014
    • maio 2014
    • junho 2014
    • agosto 2014
    • setembro 2014
    • outubro 2014
    • fevereiro 2015
    • março 2015
    • abril 2015
    • fevereiro 2016
    • março 2016
    • julho 2016
    • agosto 2016
    • setembro 2016
    • outubro 2016
    • novembro 2016
    • abril 2017
    • maio 2017
    • junho 2017
    • julho 2017
    • fevereiro 2018
    • outubro 2018

    Powered by Blogger


 

 visitantes online