sexta-feira, agosto 22, 2008

Dia 3 - Do Redondo à Graça do Divor

Saboreando a manhã alentejana à saída do Redondo


A noite mal dormida na espelunca onde pernoitámos, não muda em nada a minha opinião sobre uma das mais bonitas terras do Alto Alentejo, o Redondo.
Terra geograficamente bem ordenada, arrumada, asseada e povoada de alentejanos de primeira.
Como a noite foi dormida aos solavancos, mal o dia raiou demos sinal de alvorada e zarpámos dali para fora, até porque o ruído ensurdecedor dos outros hóspedes já há muito que se fazia sentir, melhor, nunca deixou de se fazer sentir.
Ainda a manhã cheirava a fresco e as mulheres alentejanas lavavam, chão, rua e poiais já nós nos tínhamos feito à estrada, calcorreando pela última vez o empedrado desenhado em forma de palmeiras, sabendo que, uns quilómetros à frente iríamos encontrar esse obstáculo difícil de transpor, esse osso duro de roer, que dá pelo nome de Serra D’Ossa.
Eu já tinha subido esta serra pela vertente de Terena em direcção ao Alandroal (em Agosto de 2006) e recordava-me da dureza do traçado, tanto mais, que na altura viajava com outra bicicleta e outra quantidade de bagagem, que tornavam bastante mais penosa a subida.
O Joaquim Miguel, que conhece estas paragens desde que se conhece a si, avisava-me que por este lado a subida era mais curta, mas bastante mais difícil.
Quando o raio da serra começa a empinar, começamos nós a desmultiplicar carretos, com a mesma velocidade que jogador viciado troca dinheiro vivo por fichas de casino (onde é que fui arranjar esta?), na primeira curva, já eu não tinha mais mudanças para meter, passando unicamente a contar com a pouca força física e o muito querer descascar aqueles penosos dois quilómetros e picos.
Atrás de uma curva, vinha sempre outra e á medida que olhávamos para cima, parecia que a serra ia crescendo connosco até tocar o céu.


Ao cimo da Serra d'Ossa - esse osso duro de roer

Bem, agora que já dramatizei a coisa, que vocês já estão com pena de mim e dos meus companheiros, quero-vos dizer que conseguimos chegar lá a cima sem por uma única vez colocar o pé no chão….e como diz o meu amigo Manel Faria - se conseguiste subir essa, consegues subir qualquer uma!
Depois foi uma vertiginosa descida até Estremoz onde o Carneiro queria comprar postais para enviar ao seu Vasquinho, mas, por razões que a razão desconhece, ou porque tivessem receio que os arrastasse para mais uma actividade lúdico-gastronómica na famosa adega do meu amigo Isaías, foi decidido passar ao largo duma das cidades de minha eleição.
A manhã estava excelente para pedalar, o piso, uma categoria, o que fez com que galgássemos várias dezenas de quilómetros em menos de um fósforo.
Passámos Vimiero e continuámos em direcção a Arraiolos (vila onde esta viagem havia começado).
Ao chegar às aforas de Arraiolos fomos visitar uma adega local, mas que para nossa desgraça se encontrava fechada, o que não nos impediu de fazer esta foto, assim um bocado à laia dos livros “dos 5” da nossa juventude.


" Os três - Uma Aventura na Adega" - podia perfeitamente ser o titulo do livro.

Como já havíamos decidido terminar por ali este passeio de três dias pelo Alentejo do Alto, combinámos almoçar no Bezica na Graça do Divor, onde rematei a viagem com o inevitável “rabanho” de minis e uma pratada de túbaros, a que o Carneiro fazia uma cara de enjoado (gajos de Lisboa e ainda por cima do Sporting - o que se há-de fazer?).
Despedimo-nos combinando outras viagens, outros destinos, mas a mesma férrea vontade de continuar a pedalar ao encontro do inevitável entardecer.

Quilómetros percorridos -85

Etiquetas: adega do isaias, arraiolos, estremoz, redondo, Serra d'ossa, vimieiro

Escrito por pulanito @ agosto 22, 2008   5 comentários

quinta-feira, agosto 21, 2008

Dia 2 - Por Terras do Grande Lago

Já a aurora havia rompido há um belo par de horas quando abalámos de Moura, capital do melhor azeite alentejano e agora cidade de referência do grande lago do Alqueva, que era o nosso destino principal para este segundo dia pedalante, ou seja visitar algumas das aldeias e vilas ribeirinhas desta impressionante massa de água, que tem um perímetro maior que a totalidade da costa portuguesa e que será em anos vindouros um bálsamo rejuvenescedor para periclitante economia desta região.


Na Póvoa de S. Miguel fotografei este curioso catavento.
Percorrendo as estradas desertas que circundam o grande lago, fomos visitar a aldeia da Estrela (nosso primeiro destino).


Aqui está a prova de que passámos pela aldeia da Estrela..


Aqui chegados, impunha-se a tradicional foto a assinalar a nossa passagem por esta aldeia ribeirinha, que de resto era primeira visita para os meus companheiros de viagem, mas para mim a recordação de uma outra viagem (2006) onde havia ali ficado prisioneiro do imenso calor que se fazia sentir nesse Agosto infernal.
Como a Aldeia da Estrela não tem saída, regressámos à estrada que nos há-de conduzir a Mourão, não sem antes regressarmos às margens deste mar alentejano para visitarmos a nova Aldeia da Luz.


Na aldeia da Luz

A aldeia é bonita, e impressiona o trabalho de reconstituição levado a cabo pelas entidades responsáveis pelo realojamento dos habitantes da agora submersa aldeia.
Os Luzienses continuam descrentes com a incerteza que o futuro lhes pode oferecer, mesmo com esta imensa riqueza que à porta lhes veio bater, continuando a demandar outras paragens por via da ausência de futuro imediato que para eles continua a ser uma miragem.

Nas fraldas do Alqueva


O trajecto até Mourão foi feito em pedalada passeante e em debate a três sobre as causas, efeitos e potencial que esta bonita povoação poderá oferecer num amanhã não muito longínquo.
Chegados a Mourão, fomos à procura da famosa Adega Velha, esse mítico santuário gastronómico de que ouvira falar, mas que nunca tivera a oportunidade de visitar.
Como falamos de um local “ à la Pulanito”, mas de impressionante valor gastronómico e patrimonial, vou aqui alargar-me um pedaço, para vos deixar com água na boca e vontade de por lá aparecer assim que demandarem aquelas paragens.



Adega Velha

À porta um ramo de louro pendurado, (o ramo pode ser doutra coisa que não louro) que o dono aproveita para secar, indica-nos (como em tempos imemoriais) que estamos à entrada de uma casa onde se servem vinhos e petiscos.

Engenheiro, perdão! - Adegueiro Joaquim Bação - o nosso anfitrião


Estas casas eram frequentadas por homens, já que as mulheres que aqui faziam poiso eram chamadas de “rameiras” (por via do tal ramo à porta), com a mesma conotação negativa com que o adjectivo atravessou os tempos.


O Adegueiro, perdão, o Engº Joaquim Bação, fazendo o que lhe dá mais prazer: anfitrionando na Adega Velha.


Lá dentro e atrás do balcão a figura de um homem calvo que se nota à distância, amar aquilo que faz. Conta-me o Joaquim Miguel que o conhece, que é engenheiro, mas que por vocação, é na verdade adegueiro, e isso transparece na luz que irradia da figura deste homem que se destaca tanto atrás do balcão, como quando se mistura com os clientes em cantoria alentejana de arrepiar corações aos clientes menos habituados ao cante da terra.

Um cantador residente


As talhas, o lajeado do chão, os imponentes móveis antigos, a colecção de rádios, de pintura, de fotos e de um sem número de artefactos, mais o abobadado da adega fazem deste local um museu vivo por onde os nossos olhos passeiam em vertiginosas viagens a um passado que de repente renasce em vigorosas e presentes memórias.
“ Eu quero é morrer aqui” debitava eu metaforicamente, entre copos de um branco de se lhe tirar o chapéu, enquanto os meus comedidos companheiros de viagem se assustavam com as proporções etílicas do meu empolgamento, tanto mais que ainda tínhamos pela frente umas boas dezenas de quilómetros para calcorrear.
Debicámos (a convite da clientela habitual) tomate com sal e orégãos para acompanhar os minúsculos copitos de branco.


Os três "astronautas" deliciando-se na Adega velha - Foto de João Pedro

Depois do cante veio o repasto e posso-vos garantir que do que provei, é tudo excepcional. As azeitonas, o queijinho, o chouriço, o vinho e o cozido de grãos absolutamente divinais.
Por mim teria ficado por ali, mas outro destino esperava por nós e foi com redobrada vontade de ali regressar que montámos as nossas máquinas pedalantes e partimos em direcção ao entardecer.

Em breve voltaremos!


Ainda em Mourão deparámo-nos com este " Tuti Frute"!!!


Depois foram sessenta dolorosos quilómetros até ao Redondo onde pernoitámos.
Como não tínhamos nada marcado e o cansaço era por demais evidente ficámo-nos pelo primeiro local onde nos aceitaram e que se verificou ser um verdadeiro pardieiro.
Reparti com o Carneiro aquela coisa chamada quarto com uma minúscula casa de banho (fora do quarto) que nos recusámos a utilizar quando a manhã chegou, tal o estado em que estava, visto os restantes utilizadores (muitos) desse espaço serem verdadeiros sabujos.
Regressarei em breve para a jornada derradeira por terras do Alentejo.

Quilómetros percorridos: 112

Etiquetas: Aldeia da Estrela, Aldeia da Luz, Alqueva, Mourão, redondo, Serra d'ossa

Escrito por pulanito @ agosto 21, 2008   7 comentários

domingo, agosto 17, 2008

Pulanito, Carneiro e Joaquim Miguel à Descoberta dos Lagos Alentejanos.

Aqui está a minha máquina pronta para partir, com o respectivo "zingarelho" montado

Este ano, temos como desculpa para pedalar “por aí”, partirmos à descoberta duma rota imaginária das barragens alentejanas.
Partirei logo que amanheça ao encontro dos meus companheiros de viagem Helder Carneiro e Joaquim Miguel, com quem me cruzarei lá para as bandas da Vidigueira em direcção às terras do grande lago, terras estas, que revisitarei depois de aí haver estado em 2006 por altura da viagem inaugural e comemorativa dos meus 50 anos de idade.
Nessa altura levava uma bicicleta que pesaria, depois de carregada de armas e bagagens, qualquer coisa como 30 Kilos; amanhã, levarei uma bicicleta bastante mais leve e como bagagem apenas o meu novo “zingarelho” de sobrevivência, onde não transporto mais que um equipamento suplente num dos alforges, e uma roupa de verão no outro minúsculo alforge (como poderão constatar na foto).
A grande dificuldade reside precisamente aí: saber como é que me vou desenrascar apenas com um kit de sobrevivência sem conspurcar o ambiente nem provocar vómitos mos meus companheiros de viagem. Tanto o Helder como o Joaquim também apenas levarão um kit idêntico.
De qualquer modo, esta é uma excelente oportunidade para circularmos em velocidade de turista, e vermos com olhos de ver tudo aquilo que nos rodeia, efectuando paragens com fartura para podermos fotografar, conhecer, provar ou mergulhar naquilo que de melhor nos for oferecido pelas pessoas e regiões que visitarmos neste périplo imaginário das barragens alentejanas.
Não tenho a menor ideia qual será o nosso percurso, isso, fará com que seja um excelente tónico para que os leitores do Pulanito ou do Xiclista passem num, ou nos dois blogues para que se possam inteirar das “mirambulancias” destes três “cotas” aventureiros do pedal.

PS1: Acompanha aqui a diário as crónicas, fotos e opiniões desta terceira expedição por terras e lagos da planície.
PS2: Comenta e divulga este blogue, de modo a que sejam cada vez mais os que se abastecem de novidades aqui no estaminé do Pulanito.

Etiquetas: Alqueva, alvito, barragens alentejanas, monte da rocha, odivelas, redondo, Santa Clara

Escrito por pulanito @ agosto 17, 2008   2 comentários

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