terça-feira, maio 12, 2009

Morreu o Isaías

Isaías Parreiras

Vão-se-me morrendo aos poucos os ícones que ao longo da vida fui aprendendo a admirar. Isaías Parreiras era um deles!
Adegueiro galante, educação de fino recorte e humor viperino eram algumas das referências deste “monstro” da cozinha regional alentejana.
A Adega do Isaías em Estremoz, é conhecida por praticamente todos os bons apreciadores da cozinha das ervas e dos sabores, da cozinha dos ganhões de que Isaías Parreira era o seu legitimo embaixador tendo sido em diversas ocasiões e em diversos certames premiado e reconhecido como tal.
Conheci Isaías há talvez uns trinta anos, tendo sido a este apresentado por outro amigo de Estremoz, o Silvino Sardo.
Ali, naquele espaço invocativo de várias gerações de petisqueiros, rodeado das talhas onde outrora se fazia o vinho da casa e onde sobre as mesas corridas cabe sempre mais um, passei noites memoráveis.
Isaías ao final das refeições sempre vinha sentar-se connosco e entrar no jogo do "parvejo" que parece ser extensível a uma faixa significativa de alentejanos, onde me incluo.
Na Adega do Isaías degustei muitas das iguarias da terra chã. As “burras” são um ex-libris da casa (agora chamam-se por aí bochechas de porco e já vêm sem osso -modernices!), aqui provei, as melhores migas de que tenho memória incluindo as de espargos, mas dos pratos que mais gostei de aqui saborear foi a famosa lebre com nabos.
Tenho na lembrança as noites de fadistagem que ocasionalmente aqui aconteciam, até porque Estremoz é terra de boas vozes e o local propício a dar liberdade às gargantas cantadeiras da marmórea cidade.

Um recanto da adega

Muitas vezes depois de almoço fiquei á conversa com este amigo que agora partiu. Numa dessas vezes, já a meia tarde, toca o telefone. Isaías atende, do outro lado alguém diz :– fala da casa militar do senhor Presidente da República Dr. Mário Soares. O Senhor presidente gostaria de almoçar na sua casa no regresso da homenagem que vai fazer ao General Humberto Delgado em Vila Nueva del Fresno.
Depois de se certificar que não era nenhuma brincadeira Isaías responde – Mas a minha casa é uma adega, como é que vou receber aqui o Presidente da República, questionou.
- O Senhor Presidente sabe muito bem que é uma taberna e faz questão de almoçar na sua casa, e já agora gostava de comer migas.
- Mas pretende que feche a casa só para o Presidente, retorquiu.
- Não. Pode reservar uma ou duas mesas onde caibam 16 a 20 pessoas.
Fui testemunha deste episódio e posteriormente confirmei a passagem de Mário Soares por este local conforme combinado e de que Isaías guarda foto a celebrar tão importante acontecimento.
Ultimamente só via o amigo Isaías aquando da tradicional ida a Vila Viçosa para a encomenda dos cartazes para a corrida de touros de Entradas. Era então paragem obrigatória um lanche ou um jantar à do Isaías.
Depois da morte prematura de seu filho ( José Marcos), mestre Isaías ressentiu-se dessa maldade que a natureza lhe pregou, tendo desde então muita dificuldade em recuperar a mobilidade, mas mesmo assim não deixava de estar presente, recebendo os muitos amigos que lhe frequentavam a adega, mas que Isaías recebia, como se fosse o salão nobre de um palácio.
Continuarei a frequentar este local de peregrinação gastronómica, porque sei, que os que ficaram hão-de querer honrar o homem que colocou Estremoz e o Alentejo no mapa dos gastrónomos mais exigentes….e até um Presidente da República.
Quando aí for, olharei para a cadeira onde sempre o encontrei, e certamente com ele trocarei dois dedos de conversa. Espero que me volte a contar a estória do garrafão contendo aquela aguardente amarelinha que descobriu debaixo da cama e que lhe foi ofertado no dia do seu casamento há mais de 40 anos e que sempre me dava a provar de cada fez que me via, e o raio do garrafão nunca mais tinha fundo.
Descanse em paz...foi um prazer conhecê-lo amigo, se é que me concede a honra de assim o tratar.

PS: na minha agenda telefónica ainda consta assim o seu nome: Isaías - a melhor taberna do mundo.

Etiquetas: burras, Cozinha alentejana, cozinha dos ganhões, estremoz, Isaías Parreira, lebre com nabo, migas, Taberna do Isaías

Escrito por pulanito @ maio 12, 2009   1 comentários

sexta-feira, agosto 22, 2008

Dia 3 - Do Redondo à Graça do Divor

Saboreando a manhã alentejana à saída do Redondo


A noite mal dormida na espelunca onde pernoitámos, não muda em nada a minha opinião sobre uma das mais bonitas terras do Alto Alentejo, o Redondo.
Terra geograficamente bem ordenada, arrumada, asseada e povoada de alentejanos de primeira.
Como a noite foi dormida aos solavancos, mal o dia raiou demos sinal de alvorada e zarpámos dali para fora, até porque o ruído ensurdecedor dos outros hóspedes já há muito que se fazia sentir, melhor, nunca deixou de se fazer sentir.
Ainda a manhã cheirava a fresco e as mulheres alentejanas lavavam, chão, rua e poiais já nós nos tínhamos feito à estrada, calcorreando pela última vez o empedrado desenhado em forma de palmeiras, sabendo que, uns quilómetros à frente iríamos encontrar esse obstáculo difícil de transpor, esse osso duro de roer, que dá pelo nome de Serra D’Ossa.
Eu já tinha subido esta serra pela vertente de Terena em direcção ao Alandroal (em Agosto de 2006) e recordava-me da dureza do traçado, tanto mais, que na altura viajava com outra bicicleta e outra quantidade de bagagem, que tornavam bastante mais penosa a subida.
O Joaquim Miguel, que conhece estas paragens desde que se conhece a si, avisava-me que por este lado a subida era mais curta, mas bastante mais difícil.
Quando o raio da serra começa a empinar, começamos nós a desmultiplicar carretos, com a mesma velocidade que jogador viciado troca dinheiro vivo por fichas de casino (onde é que fui arranjar esta?), na primeira curva, já eu não tinha mais mudanças para meter, passando unicamente a contar com a pouca força física e o muito querer descascar aqueles penosos dois quilómetros e picos.
Atrás de uma curva, vinha sempre outra e á medida que olhávamos para cima, parecia que a serra ia crescendo connosco até tocar o céu.


Ao cimo da Serra d'Ossa - esse osso duro de roer

Bem, agora que já dramatizei a coisa, que vocês já estão com pena de mim e dos meus companheiros, quero-vos dizer que conseguimos chegar lá a cima sem por uma única vez colocar o pé no chão….e como diz o meu amigo Manel Faria - se conseguiste subir essa, consegues subir qualquer uma!
Depois foi uma vertiginosa descida até Estremoz onde o Carneiro queria comprar postais para enviar ao seu Vasquinho, mas, por razões que a razão desconhece, ou porque tivessem receio que os arrastasse para mais uma actividade lúdico-gastronómica na famosa adega do meu amigo Isaías, foi decidido passar ao largo duma das cidades de minha eleição.
A manhã estava excelente para pedalar, o piso, uma categoria, o que fez com que galgássemos várias dezenas de quilómetros em menos de um fósforo.
Passámos Vimiero e continuámos em direcção a Arraiolos (vila onde esta viagem havia começado).
Ao chegar às aforas de Arraiolos fomos visitar uma adega local, mas que para nossa desgraça se encontrava fechada, o que não nos impediu de fazer esta foto, assim um bocado à laia dos livros “dos 5” da nossa juventude.


" Os três - Uma Aventura na Adega" - podia perfeitamente ser o titulo do livro.

Como já havíamos decidido terminar por ali este passeio de três dias pelo Alentejo do Alto, combinámos almoçar no Bezica na Graça do Divor, onde rematei a viagem com o inevitável “rabanho” de minis e uma pratada de túbaros, a que o Carneiro fazia uma cara de enjoado (gajos de Lisboa e ainda por cima do Sporting - o que se há-de fazer?).
Despedimo-nos combinando outras viagens, outros destinos, mas a mesma férrea vontade de continuar a pedalar ao encontro do inevitável entardecer.

Quilómetros percorridos -85

Etiquetas: adega do isaias, arraiolos, estremoz, redondo, Serra d'ossa, vimieiro

Escrito por pulanito @ agosto 22, 2008   5 comentários

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