sábado, janeiro 10, 2009

Ceifeiras de Entradas Cantam as Janeiras

A enluarada noite Entradense estava fria como há muito por aqui não se sentia. Falava-se até que podia nevar por estas bandas caso o céu se nublasse madrugada dentro.
As Ceifeiras de Entradas, novíssimo grupo coral feminino, que tanto eu como a Maria Lucília fomos convidados a apadrinhar, convite a que acedemos com entusiasmo e com a convicção de que daremos o nosso melhor de forma a promover estas afinadíssimas vozes, que procuram fomentar a cultura Alentejana em geral e a Entradense em particular.

Bem, a noite era de reabilitação de uma tradição que há muito se havia perdido no tempo; o cante das Janeiras.
As Janeiras ou cantar as Janeiras é uma tradição em Portugal que consiste na reunião de grupos que se passeiam pelas ruas no início do ano, cantando de porta em porta e desejando às pessoas um feliz ano novo.Ocorrem em Janeiro, o primeiro mês do ano. Este era o mês do deus Jano, o deus das portas e da entrada. Era o porteiro dos Céus e por isso muito importante para os romanos que esperavam a sua protecção. Era-lhe pedido que afastasse das casas os espíritos maus, sendo especialmente invocado no mês de Janeiro.Era tradição que os romanos se saudassem em sua honra no começar de um novo ano e daí derivam as Janeiras.Terminada a canção numa casa, espera-se que os donos tragam as janeiras (castanhas, nozes, maçãs, chouriço, morcela, etc.). Por comodidade, é hoje costume dar-se chocolates e dinheiro, embora não seja essa a tradição.No fim da caminhada, o grupo reúne-se e divide o resultado, ou então, comem todos juntos aquilo que receberam.As músicas utilizadas, são por norma já conhecidas, embora a letra seja diferente em cada terra. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1gina_principal, a enciclopédia livre

Era este o espírito que assistia ao cante das Janeiras, sendo que por estas bandas e nesses tempos, eram essencialmente cantadas às portas dos lavradores, seareiros e outros pretensos abonados residentes nas aldeias e vilas. Depois de corridas as ruas dos povoados e caso o pecúlio não fosse suficiente, partiam a pé para os inúmeros montes da vizinhança onde esperavam ter melhor sorte.

Na noite de ontem (09/01/09) em Entradas, o espírito era recuperar essa tradição dentro da presente modernidade e fazer de porta em porta o debut destas Ceifeiras Entradenses.








A primeira actuação teve lugar na Biblioteca local, de seu nome Manuel da Fonseca, que caso fosse vivo, seguramente seria um devoto destas noctívagas saídas.

O ensaiador Paulo Madureira, qual Infante D. Henrique à descoberta da noite gelada


O grupo reuniu-se e a mando do ensaiador Paulo Madureira, interpretou o seu parco repertório aprendido à pressa e em meia dúzia de ensaios, mas que, segundo a minha opinião e a dos restantes felizardos espectadores estavam afinadíssimas.

Saídos da biblioteca, percorremos na gélida noite a terra que me viu nascer. Sem que ninguém soubesse, regredi no tempo e regressei à minha infância. Bebi deste ritual as minhas memórias de menino, e à medida que avançávamos de porta em porta cantando a moda “ do canivete a bailar, para uma chouriça ganhar”, fui cimentando no que mais de intimo tenho, o prazer de aqui haver nascido, e de com os meus percorrer as ancestrais pedras da calçada Entradense.

Lendo as quadras relativas às Janeiras à proprietária do Restaurante O Celeiro - Ana Maria Soares


Uma das primeiras paragens deu-se no restaurante Celeiro, onde os repastantes se deliciaram com a surpresa. Após a cantoria uma das cantadeiras de talêgo em punho, solicitava uma pequena contribuição aos presentes a que genericamente acediam.

Dali seguimos, qual bando errante até à taberna do Pedro, onde se repetiu a cena. Percorremos depois Entradas de lés a lés, fazendo paragens aqui e ali e em especial à porta dos estabelecimentos onde mais gente se encontrava.
Uma das paragens teve lugar numa das padarias locais, para onde entrou toda a gente a fim de se aquecer, já que o ambiente era o recomendado para um reabastecimento de calor, bem como o perfume que exala destas fábricas é um bálsamo para quem durante três horas aguentou sem pestanejar as absurdas temperaturas negativas que se faziam sentir.

Um Entradense vem à rua e oferece às cantadeiras e acompanhantes um copinho de vinho do Porto.

Na Horta teve lugar a última apresentação. No regresso parámos junto ao poço com o mesmo nome e aí, o ensaiador Paulo Madureira quis surpreender os acompanhantes com uma moda genuinamente Entradense e com a afinação quase, quase no ponto.









Como a coisa foi feita noite adentro e luz era inexistente, quase não tenho imagens, mas o troar das vozes das mulheres de Entradas fica aqui vincado de forma indelével, sendo também um presente para todos os que se interessam por todas estas coisas da alma alentejana.

Etiquetas: alentejo, Ceifeiras de Entradas, Entradas - castro verde, Janeiras

Escrito por pulanito @ janeiro 10, 2009   4 comentários

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