Quarta-feira, Dezembro 14, 2011

Fim da Linha


Já aqui não venho há tempo. Não tenho tido vontade de escrever, ou por outra, tudo o que me vem à cabeça não faz sentido ser publicável.

Cá por dentro, onde as coisas só doem a cada um, sinto-me abatido, destroçado.
Sinto que um trabalho que construí paulatinamente ao longo de vinte anos se está a ir (se é que não foi já!) por água abaixo. Isso seria o menos, porque na verdade, do que eu gosto mesmo é de desafios, de me meter em coisas que não domino, mas sem dar parte de fraco jogar-me a elas como se fora entendido na matéria. Herança genética que herdei daquele que já lá está e que saiu de Entradas (minha terra) como alfaiate e quando chegou a Lisboa já era pedreiro. Foi só uma questão de trocar a fita-métrica pelo fio-de-prumo e a agulha pela colher e a tesoura pela talocha. É um predicado de que me orgulho.

Sempre que me cansei do que fazia, “fechava a loja” e embarcava noutra aventura. Umas vezes fui bem sucedido, outras nem por isso, mas em todas aprendi, com todas enriqueci. Agora, sinto que é chegado o fim de mais um ciclo, só que desta vez com uma diferença abismal. Não sei o que poderei fazer!
Neste país não há nada para fazer, tudo parou, o futuro é um verbo inconjugável.

Se os que como eu tiverem de ser os cordeiros do sacrifício para oferecer aos deuses germânicos, pois que assim seja, estou num momento em que pouca coisa me importa e na verdade só lhes posso oferecer a minha absoluta indiferença.

Mas para dar um cheirinho de como funciona este Portugal, de como afinal nada mudou e se tal aconteceu foi para pior. Os comportamentos continuam a ser de uma desfaçatez a colocar à prova a maior das paciências deste mundo. Passo a explicar: Tenho há mais de um ano uma dor crónica por via de umas vértebras da coluna cervical que pressionam os respectivos nervos e me provocam dores nas costas e que descem pelo braço chegando a adormecer-me a mão direita.

Não quis aborrecer os senhores do Serviço Nacional de Saúde e fui fazendo tentativas com quiropratas e massagistas de várias especialidades que me anunciavam a cura numas quantas sessões, como tal nunca aconteceu, resolvi voltar-me para aqueles que têm o dever de me tratar.

No inicio de Outubro fui ao meu médico de família (a quem daqui presto a minha homenagem), um excelente médico que me atende à hora em que marco a consulta e com ele tudo funciona sobre rodas, o problema é o que vem a seguir.
Recomendou-me que fosse fazer uma radiografia à coluna cervical e que depois de concluída lha viesse mostrar.

Da consulta dirigi-me directamente ao centro de exames em Lagoa, onde me informaram que para Outubro já estavam completos e que para Novembro ainda não estavam a aceitar marcações. Teria de lá voltar três semanas depois.
Regressei passado um mês, marcaram-me a radiografia para daí a quinze dias, depois de a fazer, pediram-me que a fosse lá buscar dez dias. Não sei se estão a ver bem o filme. Estou a falar de uma simples radiografia que demora mais dois meses, depois de ser dada ordem médica de tal execução.

Com o precioso exame na mão regresso ao meu médico de família que me recebe no dia seguinte ao meu pedido e antes da hora marcada...milagre!!
Como tenho de fazer fisioterapia, dão-me os exames e a recomendação do meu médico assistente para que os vá entregar (qual moço de recados!) à directora do centro regional de saúde da minha residência para assinar.

Aí chegado peço para que a senhora coloque a sua assinatura a uma funcionária que me disse não se processarem assim as coisas: “são cinco dias úteis para a doutora assinar uma credencial.” Voltei a engolir em seco e a exasperar.

Regressei uma semana depois. O documento não estava onde o deixei e lá me mandaram outra vez para outro departamento, mas dentro do mesmo edifício(menos mal!) e outra vez de moço de recados da funcionária fiz para ela puder continuar o seu telefonema privado de que claramente me apercebi, mas que a senhora fez questão em continuar ao mesmo tempo que me atendia.

Finalmente tenho a assinatura da doutora. Pergunto: “E agora o que faço?” Resposta da funcionária que me deu o salvo conduto para a “salvação”: “Agora vai à clínica de fisioterapia e começa os tratamentos.”
Chego à clínica com um sorriso de orelha a orelha. A funcionária de serviço à recepção está também ao telefone e também pelo tom e teor da conversa é assunto particular.
Espero que termine. Apresento sorridente a credencial carimbada, revista, aprovada, assinada.
Resposta: “aqui na clínica é o doutor que marca as consultas (sic) portanto deixe-me o seu telefone que será contactado para marcar a consulta.”
“E esse contacto será feito ainda hoje (13/12).” — inquiri.
“Hoje já não, mas durante esta semana vai receber o telefonema.”
“E a consulta será marcada de imediato?” — perguntei, suspeitando que a resposta fosse a que me foi dada.
“Não. A consulta será para uns dias depois. Talvez num dia da próxima semana já tenha a sua consulta.”
“E o tratamento quando é que começa?” — insisti.
“Isso é com o médico. Não lhe posso responder mais nada. Espere pelo telefonema.”

E pronto. Hoje é dia 14/12 o telefone continua sem tocar e provavelmente entraremos no síndrome do “Sabe isto agora mete-se o Natal, só lá mesmo para o ano!”

Os salafardanas que decidem e que permitem que estes comportamentos sejam o pão nosso de cada dia, deveriam ter as mesmas dores que eu tenho há mais de um ano em vez de irem para as televisões debitarem “postas de pescada” acerca de rácios, gráficos de comparação, taxas moderadoras e mais a treta do utilizador pagador e mais a puta que os pariu, que estou sem paciência nenhuma para esta gajada toda.

Estamos no fim da linha e esta cabrãozada toda empertigada continua a comportar-se como os músicos do titanic. O barco a afundar-se e eles com água pelos tornozelos mas continuando a tocar, como se nada estivesse a acontecer.

Novidade, novidade, é que estou a acabar de escrever o meu primeiro romance.
Estou assim numa espécie de grávido de sete meses. Já só quero que a criança nasça, mas tenho de esperar o tempo certo para que venha a este mundo com o mínimo de imperfeições. Este também tem sido um dos motivos porque não tenho passado por aqui. Ando demasiado preocupado com a minha gravidez, que na minha idade só pode ser de risco!

Escrito por pulanito @ 17:31   5 comentários

Sábado, Outubro 22, 2011

A Rainha da Pradaria



Senhora Cristina Lança - A rainha da pradaria


Parece nome de filme de cowboys, mas é pura ilusão.
De cada vez que passava ao Monte dos Merendeiros, era obrigatório parar e visitar a Senhora Cristina Lança, mulher que aprendi a admirar, tanto pela sua coragem, como pela sua bondade, mas também pela serenidade da sua beleza.
Era uma mulher corajosa. Resistiu sempre a mudar-se para a aldeia. Dizia-me que ali, no monte, havia passado a sua vida, criado os seus filhos Luís e Ana, ali vira morrer o marido e ali queria passar o resto dos seus dias.
Garantia que o medo não a assustava!

Para o espantar, mostrava-me as espingardas que tinha à cabeceira da cama sempre carregadas e prontas para o que desse e viesse, coisa que fazia acariciando-lhes a cronha, sinónimo de que sabia lidar com elas caso fosse necessário.

Das muitas visitas que lhe fiz, umas vezes só, outras com a minha família, Dona Cristina sempre me recebia com a satisfação de quem tem prazer em repartir com o próximo o que tem de seu.
Costumávamos bebericar chá em chávenas domingueiras que ela trazia no bule das visitas. Depois, abria a lata dos bolos sortidos e ficávamos ali a escolher os sabores que estavam escondidos por debaixo das pratas de cores variadas e a ver descer o sol, que se assim se punha para lá do outeiro, anunciava mais uma noite de solidão à última resistente da pradaria.

Era impensável de lá sair sem provar os múltiplos licores da sua lavra, fruto de remota e apurada alquimia, cuja fórmula insistia em comigo partilhar, mas que eu recusava ouvir para não arruinar a magia que o momento proporcionava.

Não sei quantas vezes me contou a história da arca com moedas de ouro. Tesouro este, algures enterrado no enfiamento dos vários montes que da sua porta se viam apenas num determinado ângulo, mas que abrangia um território tal, que mesmo que um homem tivesse várias vidas e mesmo cavando todos os dias, do nascer ao pôr-do-sol, jamais o conseguiria encontrar.
Dei comigo a pensar que, se um homem cavasse todos os dias da sua vida e se na terra cavada semeasse o fruto que daí germinasse, mesmo que nunca encontrasse a tal arca misteriosa, teria encontrado o tesouro que era o fruto do seu trabalho.
Talvez fosse esta a moral da história de que Dona Cristina insistia em contar-me mais das vezes que por ali passava.

Quando era tempo das túberas e sabendo-me apreciador, fazia sempre questão de me guardar um pequena porção, para me poder deleitar com esta iguaria que só o olho treinado de quem trata por tu a terra sabe descobrir.

Dona Cristina alimentando os perus.

Vir embora dos Merendeiros sem qualquer presente era absolutamente proibido. Certo dia disse que me queria oferecer um galo, mas que teria de ser eu a apanhá-lo.
Lá fui para dentro do galinheiro tentar o impossível. Havia galinhas a esvoaçar, milhares de penas pelo ar e a respetiva caca nas mãos e cara para os que assistiam se poderem deleitar. Passada meia-hora desisti. Foi então que Dona Cristina entrou no galinheiro e em menos de trinta segundos trazia preso pelas asas o galo que fez questão em me ofertar.

Ainda hoje, quando por lá passo, revisito o espírito da mulher com olhos cor de mar, que me acena lá do alto e, que de espingarda ao ombro, continua a proteger este imenso território.
Não fosse ela a minha rainha da pradaria!

Crónica a publicar na Revista 30 Dias de Novembro de 2011

Escrito por pulanito @ 12:17   19 comentários

Segunda-feira, Outubro 17, 2011

Facilitismos!


Este meu Pulanito, ultimamente parece um sem-abrigo sem eira nem beira, mal nutrido e mal cheiroso.
Já ninguém se lembra dele, quase ninguém o visita, eu próprio que sou o seu progenitor quase que o abandonei, os amigos deixaram de nele comentar, acham que esta coisa neste formato com muitas letras deixou de ter interesse. O que está a dar é facebookear e, escarrapachar a vida ilustrando-a com frases mais ou menos feitas, mais ou menos copiadas que é para dar cenário.
Eu também por lá ando, mas cada vez menos. Para dizer a verdade estou um bocado farto deste novo modo de vida “Stevejobiano” com tudo à distância dum clique; duma porcaria dum clique!
Tenho cá uma teoria de que o mundo está como está e este país é o que é, por causa dum pequeno pormenor chamado “facilitismo”. Tudo é fácil! Tudo é “easy”, esse conceito preguiçoso que nos vai aos poucos entorpecendo membros e cérebro.
Ainda ontem vi na televisão uma rapariga num desses programas “fáceis” onde basta aparecer para ter depois um país aos pés, a dizer que África era um país da América do Sul e depois ria-se, como os tolos, sem saber porquê!
E são estes exércitos de trogloditas que nos entram casa dentro em horário nobre. É claro que podemos sempre não ver. Podemos sempre ler um livro; montar um spitfire da Planeta Agostini; fazer sopa de feijão para toda a semana; reparar o autoclismo ou amolar a faca de cortar os pulsos.
Estou seguro que esta pequena que pensa que África é um país da América do Sul não sonha com o terramoto que aí vem. Na sua infinita ignorância, só se dará conta que o mundo está a mudar quando o centro comercial favorito deixar de abrir as portas.
Não tenho grandes dúvidas que este e os próximos anos, serão tempos que iremos no futuro recordar pelas piores razões e o facilitismo será uma delas.
A facilidade com que se passa a perna à justiça, dilatando prazos e levantando recursos virgulares e outras pequenas incongruências que aos olhos da invisual justiça são para se cumprir demore ele o tempo que demorar, não importando que esta se cumpra ou não.
A facilidade com que se justificam enriquecimentos repentinos depois de efémera passagem por esse centro de estágio chamado governo.
A ligeireza com que determinados indivíduos vivem ano atrás ano, na subsidiodependência obscena sugando os recursos agora verdadeiramente necessários e quase inexistentes.
Um país que está prestes a perder a classe motora da sociedade, relegando-a para a notação P+, ou seja, para a categoria: cada vez mais pobre!
Que encara isto com leviandade sem se verdadeiramente indignar, é uma sociedade doente, enfermada pelo facilitismo em que está enredada e que dele não quer abdicar.
Vivemos num país onde a culpa ficou para tia. Um país que se rege pela lei do mais forte, assim uma coisa terceiro-mundista vestida de Armani e com um lauto charuto a enfeitar os beiços.

Escrito por pulanito @ 16:28   6 comentários

EU SOU - Seven MInds com participação do Pulanito



Uma rapaziada aqui do Algarve pediu-me para fazer uma pequena intervenção no seu novo trabalho. Aceitei o repto porque gosto destes desafios e porque gostei das “malhas” desta malta, que fabricam um som que tem a ver com a minha geração, mas ao mesmo tempo moderno e interventivo.

Bem sei que ainda terão muito para esgravatar, mas têm de se começar por algum lado e este foi o ângulo que eles escolheram para saírem da casca algarvia onde há muito o seu nome é falado.

Eles são os Sevem Minds, sete cabeças que pensam por si, que fazem uma música desempoeirada, com uma energia contagiante que, ou muito me engano, ou ainda virão a dar que falar!

Para já, EU SOU, um dos seus admiradores e no caso presente também colaborador, já que tenho uma participação relâmpago neste seu trabalho.

Vejam, ouçam e comentem o trabalho destes “moçes marafados” que têm na música a sua grande paixão.

Escrito por pulanito @ 15:40   2 comentários

Domingo, Setembro 11, 2011

A Velha Pasteleira.

Uma velha "pasteleira" participante no encontro de Castro Verde, aquando da Planície Mediterrânica.


Ainda me lembro como se hoje fosse da sua chegada lá a casa.
Era azul. De um cintilante azul celeste, com uns brilhantes cromados que quase ofuscavam o olhar e, meu pai, orgulhosamente montado na sua nova bicicleta acabadinha de adquirir em Castro Verde, com pagamento final datado para daí a doze meses.
Lembro-me que tinha espelho retrovisor, campainha e guarda-lamas. A ténue luz dianteira era alimentada a dínamo, que quando encostado à jante da roda dianteira, rodava de modo a que se produzisse o fio de luz que lhe alumiasse o caminho.
Num dos lados do quadro, a inevitável bomba de ar, sempre necessária para encher os pneus da roda vinte e oito daquele mágico veículo.
Pendurado no selim de molas estava a balouçante bolsa de ferramentas e utensílios necessárias à reparação dos inevitáveis e frequentes furos.
Quando meu pai regressava do trabalho, especialmente em tardes de Verão, levava-me a dar uma volta montado no suporte. Eu, pequenito, agarrava-me à sua cintura, como se quisesse abraçar o mundo e, a cada pedalada, viajava-me a imaginação para lá das aforas do permitido, e a isso, chama-se sonhar!
Dessa “pasteleira” guardo as melhores recordações. Foi nela que ainda míngua de gente aprendi a andar de bicicleta. Como não havia bicicletas para crianças, a maralha miúda lá da minha terra aprendia a equilibrar-se nestes gigantes de duas rodas, enfiando parte do corpo por dentro do quadro, o tronco quase fazendo um S de modo a criar uma forma de balanço estável, a cabeça junto ao guiador, e as mãos muito a custo, chegando às manetes do guiador.
Depois de muitas quedas, alguns puxões de orelhas e outras tantas tareias, lá havia o dia em que joelhos e cotovelos descansavam e nós ganhávamos asas em forma de rodas .
Estas bicicletas, a par dos carros de bestas, povoavam a paisagem e, ainda hoje, a memória de muitos de nós.
Foi numa destas bicicletas que Joaquim Agostinho se fez ciclista ao surpreender João Roque, Leonel Miranda e companhia da equipa do Sporting, que treinando lá para as bandas de Torres Vedras, foram surpreendidos por aquela força da natureza, que montando aquele “ferro”, sem mudanças nem caganças, os acompanhava nas descidas e ultrapassava nas subidas, causando o espanto daqueles ídolos de então, que só descansaram quando o levaram para a sua equipa.
À minha porta passa todos os dias um velhote montado naquela que seguramente será a sua bicicleta de sempre, uma pasteleira igualzinha á do meu pai, só que doutra cor. Pedala quando o terreno é a favor, mas quando chega ás subidas desmonta, alçando a perna com a máquina ainda em movimento. E continua a pé, porque os seus mais de oitenta anos já lhe consumiram grande parte das forças.
Na semana passada dei com ele desbastando umas enormes canas que colhia num canavial à beira da estrada. Viu-o amarrar a dúzia de canas , montar-se na bicicleta e colocar o molho de canas debaixo do braço que segurava com a mão esquerda, apenas guiando com a direita.
Ao passar à minha porta, não vi um ciclista com um molho de canas debaixo do braço, mas sim um cavaleiro andante, montado o corcel investindo com a sua lança de doze setas contra um inimigo imaginário, talvez chamado: idade!
No passado dia 10/09, aquando da Planície Mediterrânica em Castro Verde, houve um encontro de velhas bicicletas (não confundir com bicicletas velhas!), vulgo “pasteleiras”, encontro esse a que o meu amigo Filipe Pratas dedicou tempo e alma, que resultou num evento a repetir.
Revi então, num determinado ciclista que passava, o meu pai chegando a casa, eu sentado no poial com a cara entre as mãos à sua espera. E ele a dizer-me.
- “Suba já o meu filho aí para o suporte que vamos dar a volta à vila”.

Escrito por pulanito @ 18:20   5 comentários

Domingo, Julho 31, 2011

O Senhor da Boa Viagem - Reeditado e Ilustrado.



A minha amiga e artista de enorme talento, Alexandra Prieto, é a pessoa que tem comigo uma intensa e imensa afinidade artística, interpretando ao seu modo as minhas palavras dando-lhe forma, cor e relevo como mais ninguém o conseguiu até agora.
Fico sempre espantando com o resultado plástico que a Alexandra faz da leitura dos meus escritos, servindo o presente para a republicação de um conto que escrevi há relativamente pouco tempo, mas que, pelo seu tamanho, não terá encorajado muita gente a lê-lo do principio ao fim.
Pessoalmente recomendo-o. É uma estória enternecedora em que muitos dos leitores cá do estaminé se reconhecerão, apesar de ser completamente ficcionada.
A personagem central foi construída a partir de muitos homens que conheci ao longo da vida e que compactei neste Senhor da Boa Viagem que agora vos convido a ler, ou a reler.
Um muito obrigado à Alexandra Prieto por aceitar os reptos que lhe lanço, e que, com as suas ilustrações ( que depois viram telas de enorme êxito!) enriquece este espaço que ao longo destes cinco anos tem procurado ser um sítio onde a criatividade sempre presente não seja palavra vã.

O Senhor da Boa Viagem - Ilustração de Alexandra Prieto


O Senhor da Boa Viagem


Levantou-se de manhãzinha ainda o sol era uma criança de berço. Tratou da higiene matinal em quase absoluto silêncio de modo a não despertar a sua Maria Antónia que, como quase todas as mulheres, tinha maus fígados matinais; da parte da tarde era uma joia de pessoa, mas pela manhã não se podia aturar!

Olhou-se ao espelho, passou as mãos pelas rugas que mais pareciam regos e reviu em cada uma delas um episódio marcante da sua vida.
As primeiras, simbolizavam o nascimento dos filhos que lhe tinham calhado na lotaria da vida o que para o caso presente significava prémio dos grandes. Nove foram os filhos que Maria Antónia lhe dera e todos vivos graças a Deus.

Os outros sulcos que lhe marcavam a face representavam outros tantos episódios da sua vida. A ida à guerra logo em sessenta e um quando esta rebentou em Angola; a passagem a salto da fronteira à procura de vida melhor que a miséria por cá vivida; a epopeia dum campaniço por terras francesas, onde tudo era novo e estranho a começar pela língua.

Anos mais tarde nasceram-lhe ao canto de cada olho duas rugas de alegria: a primeira pela notícia do seu país finalmente libertado, a outra, por poder regressar e com as suas mãos contribuir para a construção desse Portugal Novo que acabara de nascer por vontade do povo a que pertence.

De ruga em ruga, de vinco em vinco, de sulco em sulco foi-lhe o tempo esculpindo o rosto. Hoje, Chico da Horta, como sempre foi conhecido, conta setenta e dois anos e outras tantas estórias vividas numa vida cheia de perigos e de aventuras.

Na Rotunda das Ovelhas em Castro Verde onde passa muitas das suas manhãs, já o não chamam assim; apelidaram-no de Primeiro de Abril, por não vislumbrarem muita verosimilhança nos relatos da sua vida. O narrador sabe que são todos verdadeiros, até porque foi ele que os criou, mas como não pode interagir com os companheiros de rotunda sob pena de manipular os personagens, só pode estar solidário com Chico da Horta que ultimamente se ensimesmou desde que desconfiou que os seus correligionários assassinos do tempo, não davam crédito às suas façanhas.

Estamos em Junho, os dias são os maiores do ano, logo, de manhãs claras e entardeceres serôdios, coisa que faz com que Chico da Horta considere ser esta a altura do ano que mais aprecia, daí não querer perder pitada dela, levantando-se logo o astro-rei dê de vaia lá para as bandas do montado.

Já se aperaltou para o passeio matinal. Não dispensa a bota alentejana que de dois em dois anos compra na feira de Castro ao mesmo sapateiro de sempre, um homem de Almodôvar que tem a reputação no nível BBB: Bom, Bonito e Barato!

Dantes não dispensava o colete tradicional que adornava com a corrente e o respectivo relógio de bolso, herança única de seu pai, coisa que o envaidecia de sobremaneira. Mas, desde que um tal Marroquino de seu nome Mohamed passou lá pela rotunda e lhe vendeu um colete de repórter de cor caqui pela módica quantia de seis euros muito regateados, que Chico não quer outra indumentária.

Antes de sair para a rua faz um check list a todos os bolsos verificando se nada lhe falta.
No bolso de cima não podem faltar: um pequeno bloco de notas e três esferográficas bic de cores diferentes: verde, vermelho e preto. No bolso do lado contrário ao coração o inevitável telemóvel, para que Maria Antónia o possa avisar que as sopas estão na mesa para o caso de se atrasar, o que seria coisa rara, já que pontualidade britânica, não é só uma das suas qualidades, também é um dos seus grandes defeitos.

No pequeno bolso que lhe fica à altura de descansar o dedo polegar, o inevitável relógio de corrente que lhe confere uma espécie de ar aristocrático-popularucho.

Noutro dos múltiplos bolsos do colete multifunções, os inevitáveis sacos plásticos dobrados em trinta voltas que cabem às dezenas no mais ínfimo espaço, não vá o diabo tecê-las e ter de fazer umas mercas e não ter onde transportar os haveres.

Num dos bolsos com fecho de correr é o lugar para o pente e para o espelho, um hábito desde criança enraizado e que Chico da Horta faz questão em cultivar. Se o pente é um banal pente de plástico, já o espelho é uma relíquia que guarda há muitos anos; trata-se de um espelhinho circular que tem na face não espelhada um jogo com duas balizas e uma pequena esfera metálica, jogo esse, com que engana a solidão a que cada vez mais está votado.

Num outro compartimento mesmo por baixo daquele dedicado ao relógio de seu pai, assim numa espécie de vizinhança de longa data, tem lugar assegurado a sua inseparável navalhinha, ferramenta que o tem acompanhado uma vida, tendo ido e vindo a Angola, passado por terras de França e nalguns apertos o ter safado de alguma tuna de porradas. A sua estima por tão apreciado objecto exige que a mesma, também esteja presa por uma corrente que lhe parte do cinto e termina na ditosa amiga de gume gasto pelo passar do esmeril e dos anos.

Para terminar em matéria de correntes só falta referir que também o porta-chaves é contemplado com uma, e assim, Chico da Horta, jamais sai de casa sem as sua três correias ao tiracolo.

Nos bolsos de dentro, portanto locais para as coisas íntimas, coisas do foro pessoal, é onde guarda duas carteiras. Ao lado direito a dos documentos e fotos dos que mais quer, mesmo que amarelecidas pelo tempo. Do outro lado, a do dinheiro que, vá-se lá saber porquê gosta de ostentar, daí andar sempre com quantias significativas, mas sempre em notas de vinte, dez e cinco euros para com o seu volume poder impressionar os poucos que com ele privam. Este bolso para além do fecho de correr é ainda reforçado com uma pregadeira não vá o raio do demo estar atrás da porta.

E para poder sair à rua só falta conferir uma coisa! Se no seu porta moedas de cabedal do género gaveta em forma de ferradura existem os trocos suficientes para o seu vício diário: o café e o jornal com as notícias frescas.

De tanto vestir o colete de fotógrafo, começaram a chamar-lhe de: Repórter X, não só pela vestimenta mas também pela gatafunhagem que faz com as diversas canetas no seu pequeno bloco.

Conta-se até, que foi a este antroponómino camaleão que dois cidadãos viajando de automóvel de norte para sul, para passar o tempo vinham-se mutuamente questionando sobre o nome dos naturais das terras que atravessavam. Os de Lisboa era Lisbonenses, os de Setúbal Setubalenses e por aí fora. Quando estavam perto de Castro Verde não atinavam com o nome dos naturais desta vila. Um dizia que eram Campaniços, o outro teimava que eram Castroverdenses, foi já em plena Rotunda das Ovelhas que abeirando-se do permanente grupo de reformados aí presente que escolheram o Reporter X para serem esclarecidos.

Depois dos cumprimentos da praxe um deles disparou – " Amigo do colete com ar de quem sabe estas coisas. Diga-me lá como se chamam aqui os de Castro?
Chico da Horta, jogou com dois dedos a boina para trás, revelando a alva tez em comparação com o tom amorenado do resto da pele visível. Com os restantes dedos da mão coçava a dita testa em busca de resposta para tão invulgar demanda.
Depois de pensar e repensar deu-se por vencido e resolveu finalizar a questão replicando.
- Eu sou conhecido por conhecer muita coisa e mesmo muita gente, MAS TODOS OS DE CASTRO, confesso que não sei!
A gargalhada foi geral. A resposta dada passou então a fazer parte do anedotário alentejano para regalo das hordas de urbanos semianalfabetos que gostam de pavonear a sua ignorância pelos mais inusitados lugares.

Os dias foram passando; as semanas sendo devoradas pelo calendário; os meses sucumbindo ao ciclo das estações e os anos: ainda mal desaparecia o cu dum já aparecia a cabeça do outro, fazendo do tempo um cavalo selvagem de crina ao vento que galopa sem cessar, marcando cada um deles um novo sulco na sua enrugada figura.

Com o tempo foi ficando cada vez mais retraído; mais taciturno; mais ensimesmado; até que, houve um dia em que deixou mesmo de falar tendo decidido passar a viver para dentro, para um mundo unicamente habitado por si e pelos fantasmas dos seus setenta e dois anos de vida.

Certo dia leu no jornal que um tal João Manuel Serra lá da capital, homem das suas idades que saía à noite de casa para saudar com um aceno e um sorriso os automobilistas que passavam, havia morrido subitamente.

Leu a bizarra história de vida deste homem e alguma coisa mexeu com ele. Como se fosse comandado por essa estranha força chamada destino, sentiu um apelo vindo lá do fundo das entranhas; uma espécie de encarnação; uma metamorfose; um tipo de passagem de testemunho e passou a vestir a pele, a assumir o papel de senhor do adeus.

A partir desse dia abandonou o ar de desiludido da vida e passou a sorrir, a dar de vaia e desejar boa viagem a cada carro que passa na Rotunda das Ovelhas, alegrando assim a praça com o despropósito do seu repetido gesto.

Agora, já não é Chico da Horta; nem Primeiro de Janeiro; nem Repórter X. Hoje em dia, todos os que por ali passam, lhe devolvem o aceno e o chamam carinhosamente de: Senhor da Boa Viagem.

Escrito por pulanito @ 16:08   9 comentários

Sábado, Julho 16, 2011

Surpresas de Sábado de Manhã





São oito da manhã de dia de sábado. Acordo acabrunhado com vontade de continuar a dormir, mas o raio do corpo, vá-se lá saber porquê, obriga-me a saltar da cama, como que a punir-me pelos excessos da véspera.

Ao Sábado de manhã, assim numa espécie de ritual solitário, abro a Internet e consulto o Euromilhões. Tenho uma secreta esperança ( eu e mais uns quantos milhões!) de ao abrir o site dos jogos santa casa, possa conquistar a tão desejada independência.
Sábado após sábado, vou cumprindo esse desígnio para que estarei certamente fadado, que é, dizer para com os meus botões. – “P’ra semana é que é!”. E lá vou continuando a alimentar o monstro da incerteza em vez de apostar em mim.
Comparativamente, é mais provável (em termos matemáticos e de reais possibilidades!) que me caia um raio na cabeça agora mesmo que alguma vez ganhe o primeiro prémio do Euromilhões. Mas os insondáveis desígnios da fé têm muito de irracional. É agarrando-mo-nos a esse absurdo e irrealizável prognóstico, que vou mantendo acesa a chama da vitória.

Bem! Isto não tem nada a ver com o que tinha em mente escrever e, que agora, sou obrigado a descrever em poucas palavras.
Ao passar os olhos pelos e-mails dou de caras com mais este trabalho feito em cima do meu poema – Slides – Retratos da Cidade Branca.
Um gajo fica sempre assim para o orgulhoso, quando alguém que não conhecemos nos presenteia com as nossas palavras ganhando vida numa outra forma. Como não sei quem é o autor, só posso dizer obrigado pelo carinho com que as minhas palavras foram tratadas.

Stand da Art On Shoes nma mostra Macaense -Atrás da chinesa de vermelho a torre da igreja da minha terra - Entradas.

Já que falamos de orgulho, também gostaria de assinalar que a minha amiga Xana Prieto já chegou com os seus sapatos a Macau.
Desta coleção de sapatos que são telas para calçar, destacam-se os temas inspirados no livro “Ao Sul” e em especial aqueles dedicados a Entradas e, dei comigo a pensar: Agora até as chinesas da alta roda, já andam com a torre sineira da minha terra nos pés.
Fico engasgado; espantado; admirado, mas ao mesmo tempo absolutamente consciente de que se a Xana Prieto levou a sua arte para tão longínquas paragens, é porque o seu talento é do tamanho do mundo e já não cabe neste pequeno retângulo chamado Portugal.

Escrito por pulanito @ 09:20   5 comentários

Quinta-feira, Julho 14, 2011

Afinal Sou Traturista!


Trabalho em turismo desde os meus quinze anos. Sou assim uma espécie de ginecologista veraneante; trabalho onde os outros se divertem. A cada um a sua cruz. E a minha é esta!
Quando era menino, certo dia lá na escola da minha terra, a professora Juvenália fez a cada um dos alunos a sacramental pergunta: O que gostavas de ser quando fosses grande?
As respostas tinham basicamente a ver com o nosso pequeno universo. Ao tempo não havia eletricidade, rádio ou televisão e mesmo o jornal que lá chegava já trazia as noticias requentadas, o que quer dizer que os nossos desejos de futuro, eram feitos à medida desse exíguo mundo que não ia muito mais além daquilo que a nossa vista alcançava.
Neste jogo de inventar porvires, uns diziam que queriam ser carpinteiros, outros sapateiros, outros ainda maquinistas, caixeiros ou mesmo pedreiros.
Quando a professora Juvenália apontou o dedo na minha direção em demanda de resposta, retorqui imperialmente que desejava ser no meu amanhã: Tratorista!
Não sei quantos dos meus companheiros de tábua e pena terão almejado os seus sonhos de menino. A esmagadora maioria, quando chegou a altura de contribuir com a sua força braçal para o orçamento familiar, ou já tinham partido para a grande cidade ou, jogaram-se ao que lhes era oferecido, nomeadamente a guarda de rebanhos, manadas, varas de porcos ou mesmo a casa ou oficina de algum mestre, onde pudessem aprender a ser oficiais do ofício onde eram acolhidos, deixando para outras calendas a realização desse desejo de futuro um dia partilhado naquela sala de aula.
Eu, fui dos que abalei para a cidade banhada pelo rio grande e por lá fui trilhando o meu percurso. Por ser o mais novo de três irmãos tive direito a prosseguir os estudos e de repente todo um novo mundo se me escancarava à frente dos olhos.
Sonhei ser artista plástico, poeta, quiçá escritor, mas acabei por ingressar no turismo pela via hoteleira, deixando para trás os sonhos de adolescente já que o de menino há muito o havia arrumado no baú do esquecimento.
Os anos passaram à estonteante velocidade de um por cada trezentos e sessenta e cinco dias, o que, na minha idade presente, é uma correria vertiginosa.
Estava eu no outro dia a rebobinar estas lembranças, quando me dei conta de que esse desejo de criança afinal se tinha realizado embora metaforicamente.
Afinal sempre me tornei “tratorista”, já que durante os últimos quarenta anos não fiz outra coisa senão “tratar turistas”, o que com um pouco de imaginação, facilmente desemboca nessa nobre profissão.
Agora, lavro com a minha máquina reservas em hotéis; grado desejos de viagem em forma de sonho; escarifico destinos que nunca imaginei e semeio nos ventos da imaginação as tempestades que um dia colherei.

Escrito por pulanito @ 16:58   2 comentários

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